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Notícias | 15 de setembro de 2019 - 00:05


O que uma pessoa pode perder por causa das drogas?

O ex-boxeador Mike Tyson já gastou milhões de dólares com o consumo de drogas, mas as perdas provocadas pelo vício vão muito além das cifras. Conheça a história de pessoas que perderam a família, o emprego e a esperança por causa das drogas e saiba como elas venceram a luta contra o vício

Em agosto, o ex-boxeador Mike Tyson fez uma revelação estrondosa: ele fuma o equivalente a R$ 164 mil em maconha todo mês. A informação foi dada em um episódio de seu podcast. Tyson cultiva a erva em um rancho e já teria investido cerca de R$ 1,9 milhão na produção da droga.

A fama de Tyson não está ligada apenas ao esporte. Ele se envolveu em diversas polêmicas por causa do abuso de drogas e do comportamento agressivo. Em entrevistas, ele admitiu que falsificou os exames antidoping. Apesar disso, Tyson foi pego por uso de maconha após uma luta em 2000. O ex-pugilista teve ganhos de cerca de US$ 300 milhões ao longo da carreira, mas foi à falência em 2003, aos 37 anos.

Tyson gastou milhões de dólares com drogas, mas certamente essa não foi a única perda provocada pelo vício. Quantos momentos em família uma pessoa perde por causa de uma substância? Quantas horas de sono? Quantos empregos? Nesta reportagem, você vai conhecer histórias de pessoas que perderam tudo por causa do vício, mas conseguiram se reerguer. Quer saber o que elas fizeram? Continue lendo.

Crack na cabeça
Monique Abrantes e Marcio Madeiro (foto abaixo) se conheceram em uma situação inusitada: os dois perambulavam pelas ruas da zona sul da cidade de São Paulo. Na cabeça, só havia um desejo: o crack.

Marcio conheceu a maconha e as bebidas alcoólicas com amigos, aos 13 anos. Depois passou a cheirar cocaína e a praticar crimes. Foi preso aos 18 anos. O crack veio na sequência. “Larguei a escola, a família, saí de casa, perdi o controle e não ligava para mais nada”, conta Marcio. Monique também teve contato com as drogas na adolescência. Na época, seus pais estavam se separando. “Uma amiga me levou para um lugar onde as meninas se prostituíam e usavam cocaína.” Aos 18 anos, ela fumou a primeira pedra de crack. “Minha mãe se tornou viciada e vendeu o barraco onde morávamos para comprar drogas.”

Filhos perdidos
Quanto mais usavam drogas, mais acumulavam perdas. Marcio perdeu a confiança dos familiares e o afeto. “Cheguei a morar na rua, passei frio, fome, comi coisas do lixo.” A única coisa que ganhou foi o apelido, Mc Noia, pois gostava de cantar nas ruas. Monique diz que perdeu a inocência e a dignidade. “Para usar drogas, eu vendia meu corpo. Era muito humilhada.” Ela também perdeu dois filhos. “Como eu vivia nas ruas, meus filhos ficaram no abrigo quando nasceram e foram adotados.”

Mudança
Com quase três décadas de vício, Marcio já não aguentava mais o sofrimento. Ele tentou parar de usar crack várias vezes, mas não teve sucesso. A família tentou ajudá-lo, mas sua mudança só ocorreu com o Tratamento para a Cura dos Vícios oferecido na Universal.

“Obedeci aos ensinamentos até que finalmente parei de usar e de querer droga.” Depois de se livrar do crack, Marcio ofereceu ajuda a Monique. Ela estava grávida de dois meses. “Eu não queria perder a terceira criança para o abrigo, então aceitei ir ao Tratamento. Foi uma luta constante, sentia uma vontade louca de usar drogas. Acho que venci quando entreguei a minha vida nas mãos de Deus.”

Depois de dez anos nas drogas, hoje ela está há mais de dois longe do vício. Marcio e Monique se casaram e se dedicam aos cuidados da filha Ana Julia, de 1 ano e 5 meses. “Minha maior vitória é poder abraçar e cuidar da minha filha. Com Deus, tenho força para enfrentar qualquer dificuldade”, comemora Monique, que tem 26 anos. Aos 49 anos, Marcio também enumera os ganhos: “reconquistei a confiança da família e o prazer de ter uma rotina normal, como a de qualquer ser humano. Poder tomar café da manhã, escovar os dentes e ir trabalhar me traz muita alegria.”

Cura dos vícios
O Tratamento para a Cura dos Vícios tem um enfoque diferente do que é usado nas clínicas de reabilitação, como explica o pastor Adriano Moraes, responsável pelo Tratamento para a Cura dos Vícios na Catedral da Universal na Avenida João Dias, em São Paulo. “Vício é toda ação repetitiva que degenera e causa danos e destruição. Um viciado em jogos tem os mesmos sintomas que um viciado em crack. Nossa abordagem tem base espiritual e o foco é expulsar o espírito do vício.”

Segundo ele, há outros diferenciais: “o Tratamento não exige internação nem medicamentos. A família pode participar mesmo sem a presença do dependente. Ele é gratuito e aberto a todos”, destaca. O Tratamento ocorre aos domingos, em espaços dentro das catedrais da Universal. “As pessoas com vícios enfrentam uma discriminação muito grande e nós as acolhemos”, detalha Moraes, que superou a dependência de cocaína e heroína há 20 anos.

Jornada difícil
O curitibano Fábio Cézar Shibata, (foto abaixo) de 32 anos, enfrentou uma longa jornada na tentativa de se livrar das drogas. Foram várias passagens por clínicas de reabilitação, clínicas de psiquiatria, terapias, religiões, grupos de narcóticos anônimos e até mudança de país. “Na adolescência, comecei a sofrer bullying na escola. Para escapar disso, fiz amizade com o pessoal que tinha fama de perigoso. Eles bebiam e matavam aula para usar drogas.” No começo, tudo parecia diversão. Aos poucos, Fábio foi testando seus limites. “Fazíamos pequenos furtos em mercados para comprar bebidas. Eu usava maconha, cheirava cola, benzina, experimentava tudo.” Ele chegou a ser detido pela polícia.

Em uma tentativa desesperada de ajudar o filho, seus pais decidiram levá-lo para o Japão. “Eles achavam que eu estava daquele jeito por causa das amizades, mas não adiantou. Continuei a beber, a fumar e a usar drogas.” A relação com os pais ficou mais difícil e conturbada.

Depois de alguns anos, Fábio voltou ao Brasil para tentar se desenvolver profissionalmente na área de música. Entretanto ele continuou usando drogas. Sem conseguir concretizar seu sonho, ele retornou ao Japão. “Conheci pessoas que usavam drogas e comecei a experimentar coisas mais pesadas.”

Após uma crise econômica no Japão, ele regressou ao Brasil e foi acolhido por tios em Campinas, no interior de São Paulo. “Meus tios estavam dispostos a me dar suporte. Até tentei parar de usar drogas. Foi quando descobri que perdi o controle. Aonde eu ia, o vício ia junto.”

Saga
Por causa do vício, Fábio voltou para Curitiba e começou uma nova saga. Seus pais o enviaram a diversas clínicas. “Eu completava os tratamentos, saía e tentava ter uma vida normal, mas não conseguia.” Após pagar por vários tratamentos, Fábio foi para uma clínica de recuperação gratuita em uma cidade no litoral do Paraná. Ele também tentou rituais religiosos e grupos de autoajuda. Nada funcionava, até que sua mãe lhe fez um apelo: “ela pediu que eu fosse ao Tratamento para a Cura dos Vícios com ela. Eu não acreditava na cura, mas fui.”

Fábio passou um ano inteiro frequentando o Tratamento, mas o desejo de usar drogas continuava. “O Bispo me disse que eu deveria conversar com Deus e esperar a resposta dEle. Participei de um propósito de fé e comecei a observar as coisas ao meu redor. Um dia, decidi ir na biqueira para me despedir das drogas, mas na metade do caminho ouvi uma voz dizendo que eu já tinha vencido. Era a voz de Deus. Voltei para casa.”

Segundo Fábio, a vontade de usar drogas sumiu no fim do ano passado. Agora, ele vive uma nova fase. “Meus pais gastaram dinheiro com clínicas, mas isso não é o mais importante. Eu perdi muito tempo com as drogas e isso não volta. Perdi a convivência familiar, não vi meu irmão mais novo crescer. Agora quero recuperar isso”, conclui ele, que hoje trabalha na área de audiovisuais.

Livre depois de 20 anos
O paulista Almir Tranquilino de Jesus (foto abaixo) passou quase 20 dos seus 37 anos usando drogas. Nesse período, ele foi internado 22 vezes e conheceu clínicas de diversas denominações religiosas. Durante uma década, Almir conciliou a vida social com o uso de maconha, cocaína e altas doses de álcool. Então, o estilo de vida começou a gerar incômodos e ele mudou de cidade para tentar recomeçar longe dos vícios.

Em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, Almir conseguiu um emprego, tornou-se coordenador em uma grande empresa alimentícia e arrumou uma namorada. Pouco depois, teve um filho. Entretanto seu desejo pelas drogas não mudou. “Continuei viciado até perder meu cargo. Quando meu filho fez 3 anos, joguei tudo para o alto. Me separei da mãe dele, pedi as contas no trabalho e voltei para São Paulo.”

De volta à capital, ele pediu ajuda à família. “Eu arrumava emprego, usava drogas de novo, perdia tudo e voltava para a estaca zero. Eu mentia para a minha família. Cheguei a dormir na rua e a roubar.” Depois da sugestão de familiares, ele frequentou clínicas em busca de reabilitação. “Passei por todos os métodos, inclusive a internação compulsória.” Quando finalizava um tratamento, ele voltava para as drogas.

Um dia, a irmã dele sugeriu que ele fosse ao Tratamento para a Cura dos Vícios. Ela havia conhecido o projeto por meio de uma voluntária do grupo A Última Pedra. “Aceitei o convite, mas não acreditei na primeira vez. No segundo domingo, vi pessoas curadas e pedi a ajuda de Deus. A maior luta é dos pensamentos, pois o desejo de usar drogas é forte. Apesar da dificuldade, eu não desisti até vencer. Depois, busquei o Espírito Santo para me fortalecer.” Almir destaca que a fé é fundamental para mantê-lo livre há quatro anos. Além de recuperar a confiança da família, ele se casou com Valéria, a voluntária que apresentou o Tratamento à sua irmã.

Vida recuperada
Suzana da Silva, (foto abaixo) de 31 anos, também passou pelo Tratamento para a Cura dos Vícios e está livre das drogas há cinco anos. Ela conta que chegou ao Tratamento por indicação da mãe. Antes, entretanto, enfrentou situações arriscadas e foi até ameaçada de morte por conta do envolvimento com pessoas ligadas ao tráfico. “Comecei aos 15 anos com bebidas e cigarro. Daí fui experimentando outras drogas. Larguei os estudos na sétima série, me afastei da família e fui morar de favor.

Eu me sentia sozinha, achava que não tinha mais jeito. Cheguei ao Tratamento por medo, pois tinha sido ameaçada de morte. Só consegui mudar de verdade depois que segui o Tratamento à risca. Hoje tenho minha vida de volta”, conclui ela, que está casada e agora trabalha na área da beleza.

 


  • Rê Campbell / Reprodução, Arquivo pessoal e Demetrio Koch 


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