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Notícias | 6 de outubro de 2019 - 00:05


A dura realidade dos professores

Já passei por várias escolas públicas e o cenário é muito parecido: professores com depressão, síndrome do pânico e muitos afastados por licença médica

Salas de aula lotadas, alunos desmotivados, violência, escassez de recursos e pais ausentes. A educação brasileira enfrenta muitas adversidades. O atual cenário é marcado por ameaças do tráfico, agressões físicas, abuso infantil, famílias desestruturadas, falta de tempo e dificuldades econômicas dos responsáveis pelos alunos.

A violência não dá trégua. Mais de 36,5 mil profissionais da educação foram ameaçados dentro da escola e 8 mil foram vítimas de tentativas de homicídio por parte de alunos. Entre os diretores de escola, 48,9% relataram ocorrências de agressão verbal ou física de alunos a professores ou funcionários. Além disso, 1.685 alunos levaram armas de fogo para a escola e quase 11 mil entraram na instituição de ensino portando armas brancas, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Professores doentes
Diante de uma longa lista de problemas, o ensino fica em segundo plano e o professor adoece. Cerca de 66% dos professores brasileiros já precisaram se afastar por problemas de saúde, segundo pesquisa feita pela Associação Nova Escola com mais de 5 mil educadores, entre junho e julho de 2018. Desses, 87% acreditam que o problema foi gerado ou agravado pela profissão. Dos profissionais entrevistados, 68% têm ansiedade e 28% sofrem ou já sofreram de depressão.

Realidade cruel
Essa difícil realidade do sistema educacional é acompanhada de perto por Bárbara Mazin, de 41 anos, que atua como diretora de uma escola municipal em São Paulo. Ela iniciou sua carreira como professora há 20 anos e já atuou como coordenadora pedagógica designada e vice-diretora. “Já passei por várias escolas públicas e o cenário é muito parecido: professores com depressão, síndrome do pânico e muitos afastados por licença médica.”

Bárbara lamenta a desvalorização e o preconceito contra o professor de parte da sociedade. “Muitas pessoas dizem que o professor não quer trabalhar e isso não é verdade. O professor se depara com uma carga muito grande de problemas todos os dias e acaba ficando doente”, esclarece.

Ausência da família
A diretora faz um balanço de duas décadas dedicadas à educação: “a escola pública sempre teve que enfrentar questões como violência, drogas, ausência de alguns familiares. Entretanto, nos últimos anos, estamos percebendo a progressiva desorganização da estrutura familiar e isso impacta na escola. Os pais trabalham muito, outros estão ausentes, então muitos alunos vêm sem estrutura, sem base, lhes falta aprender valores como respeito.”

Segundo ela, a falta de apoio dos responsáveis ajuda a explicar boa parte dos problemas enfrentados pelos alunos. “Alguns alunos vêm para a escola a ponto de explodir, eles só precisam de um gatilho. Estamos lidando com alunos com depressão, vítimas de violência doméstica, automutilação. Há conflitos o tempo todo e o conteúdo infelizmente acaba ficando em último plano.”

Luz no fim do túnel
Como a escola encara tantos desafios? Bárbara diz que não existe fórmula e que a mera convocação de pais e responsáveis não faz muito efeito. “Não adianta trazer a família só para cobrar e reclamar do aluno. É preciso que trabalhemos em parceria. Os familiares precisam conhecer a realidade da escola, se conscientizar e participar das decisões.”

Foi com o objetivo de unir esforços que ela decidiu buscar apoio externo e convidou o pessoal do projeto Namoro Blindado nas Escolas para dar uma palestra aos alunos da instituição. “Nós precisamos trabalhar a inteligência emocional dos alunos e essa foi a proposta do encontro. O resultado foi muito positivo.” Ela diz que fez uma parceria com o projeto EducaAção, da Universal, para levar temas de interesse de alunos e professores para dentro da escola. “Vamos promover palestras sobre automutilação e depressão para os alunos e sobre saúde mental para os professores.”

Valorização
Há cerca de dois anos, o Pastor Walber Barboza (foto abaixo) começou a visitar escolas para levar o projeto Namoro Blindado nas Escolas. Dessa experiência surgiu a ideia de realizar ações em prol da educação. “Nós éramos convidados para levar a palestra Amor é questão de educação. À medida que visitamos as escolas, fomos percebendo outras necessidades e que há muitos professores com problemas de saúde. Começamos a levar palestras para pais e professores e promover campanhas para a redução de violência e contra a depressão e a automutilação. Então registramos o Projeto EducaAção, que visa levar ações para melhorar os relacionamentos pessoais entre alunos, destes com a escola e entre os pais e as escolas.”

Segundo ele, um dos focos das ações é a valorização dos professores. “O professor é muito cobrado pelos governos, pela sociedade, pelos pais, mas se investe pouco na qualidade de vida dos professores. Nossa ideia é cuidar da saúde mental deles e realizar encontros mensais com temas que vão abordar melhorias no ambiente de trabalho.”

Em setembro, a palestra Educação em Tempos de Depressão – A Sala Adoecida, organizada pelo EducaAção, reuniu mais de mil profissionais. O Pastor diz que o resultado foi positivo: “os professores se sentiram acolhidos e reconhecidos. Nosso objetivo é valorizar e contribuir para que eles estejam bem, pois são geradores de energia para os alunos.”

Apoio da fé
A professora Evanice de Siqueira Silva Vasconcelos, (foto abaixo) de 42 anos, está há 19 anos na área da educação e já deu aulas para a primeira infância e também para jovens e adultos. Hoje, ela é professora estadual no ensino fundamental, além de sócia em uma creche em São Paulo. “O professor tem o desejo de ensinar, mas em muitos casos ele é podado pelo Estado ou pela difícil realidade das salas de aula. A indisciplina dos alunos tira muitas vezes o desejo de apresentar conteúdos mais elaborados e as salas das escolas públicas estão lotadas. É um desafio ter uma educação pública de qualidade sem incentivo do Estado e sem apoio dos pais.”

Segundo ela, tanto o ensino público quanto o privado enfrentam desafios. “Na escola pública, há as mazelas da sociedade: crianças com vontade de morrer, ausência dos pais, pais que não podem comprar o básico para a alimentação, casas com muitos parentes juntos. Na creche, vejo falta de diálogo ou ausência de alguns pais em decorrência de compromissos profissionais. Muitos alunos são indisciplinados e não gostam de regras e limites.”

Para encarar os desafios da docência, ela busca apoio na fé. “Se não fosse a fé na minha vida, acho que hoje estaria descrente da educação, como muitas amigas, pois o que me motiva é saber que tem jeito. Quando Jesus faz parte da vida de uma pessoa, Ele guia sua forma de pensar e agir. Assim, eu sempre olho para os alunos como pessoas que podem ser melhores.”

Educação infantil
Edilene Helvécio Schiavinato, (foto abaixo) de 45 anos, atua há 17 anos na educação infantil de São Paulo e relata que os desafios da educação não se limitam à falta de recursos. Ela conta que os professores precisam se preparar até para lidar com casos de alunos que são vítimas de abusos. “As crianças vêm com inúmeros problemas de casa: o pai morreu, se separou ou a família é ausente e ainda há casos de abuso. É como se a escola fosse uma bomba que pode explodir a qualquer momento.”

Segundo ela, a desvalorização dos professores complica ainda mais o cenário. “O professor tem salário baixo, então, para ter uma vida digna, ele trabalha dois, três períodos e fica psicologicamente cansado. Ele não tem tempo para a família nem para a vida amorosa. Além disso, as salas de aula estão cheias e também recebem alunos com necessidades especiais, sendo que os professores, muitas vezes, não têm especialização para ajudar essas crianças.”

Há cinco anos, Edilene conta que as dificuldades da docência acabaram prejudicando sua vida conjugal. “Cheguei a trabalhar 12 horas por dia e deixei meu marido de lado. Meu casamento estava destruído e procurei a Universal. Com as reuniões, restaurei meu relacionamento e hoje tenho mais estrutura para lidar com os problemas da escola. Escuto mais as crianças e consigo ajudá-las.”

Edilene tem fé de que o Brasil ainda vai valorizar a educação. “Nos países mais ricos a educação está em primeiro lugar. Então, a valorização do sistema educacional deve começar de cima, pois é isso que vai fazer uma sociedade melhor. O professor é capaz de tornar as pessoas seres pensantes, mas ele precisa estar bem para cumprir esse papel.”

Regiane Rodrigues Fabrício, (foto abaixo) de 37 anos, é professora eventual na educação infantil da Prefeitura de Guarulhos, na Grande São Paulo.

“Cada aluno tem uma necessidade especial. Muitos têm comportamento agressivo, ficam isolados ou querem chamar a atenção, pois enfrentam problemas em casa. Isso afeta o aprendizado e muito alunos do terceiro ano ainda têm dificuldades
de alfabetização.”

Ela afirma que à medida que a criança cresce, muitos pais deixam de se preocupar com a educação dela. “Quando a criança é pequena os pais são mais participativos. Com o passar do tempo, eles ficam distantes e já não vão à escola buscar a criança, deixam essa tarefa para avós e até para vizinhos.”

Para lidar com tudo isso, Regiane busca se fortalecer. “Eu uso minha fé para entender os alunos. Quando chego na sala de aula, não posso ser apenas a profissional. Preciso ser humana e ver o que está por trás de certos comportamentos, sejam passivos, sejam agressivos. Sempre existe um motivo.”

O Pastor Walber explica como a Fé pode ajudar nessas situações. “Diferentemente do que dizem, a fé não tem nada a ver com religião, mas com convicção e com a maneira de se relacionar. E isso está em falta hoje em dia. As pessoas já não confiam umas nas outras. A nossa fé inteligente leva aos professores o senso de autovalorização e de valorização ao próximo.”

Homenagem especial
No dia 13 de outubro, a Universal vai realizar a Consagração e Valorização dos Professores e Profissionais da Educação. O evento acontecerá a partir das 9h30, em diversos templos da Universal espalhados pelo País.

Com a iniciativa, a Universal mostra que os professores não estão sozinhos em sua missão, pois sabe que eles enfrentam as próprias dificuldades. A homenagem representa o reconhecimento dos desafios diários enfrentados pelos docentes para levar educação aos jovens brasileiros.

Por isso, o dia 13 de outubro será um momento especial para que eles possam receber novas forças e apoio para continuar sua luta pela educação de qualidade. Afinal, os professores ajudam a formar seres humanos e preparam as pessoas para a sociedade. Por isso, a Universal demonstra a sua alegria em receber os professores neste evento especial.

*Colaborou: Flavia Francellino


  • Rê Campbell 


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