Sua vida parece não ter mais sentido?

Por Rê Campbell / Fotos: Fotolia, Marcelo Alves e Arquivo Pessoal / Arte: Edi Edson

"Sentia um vazio muito grande, eu me perguntava por que tinha nascido. Também sentia falta dos meus pais.” O relato é de Daniela Teodoro Franco (foto ao lado). Ela conta que começou a se sentir triste por volta dos 11 anos. Daniela não conseguia explicar a dor que sentia para a família. Quando a avó tentava conversar, ela ficava agressiva. “Vivia isolada, ia comer no quarto, não tinha diálogo. Na minha cabeça, minha família ia me julgar. Guardava a tristeza dentro de mim, mas isso foi pior”, lembra ela, que sempre morou com a avó.

Para tentar aliviar o incômodo, Daniela buscava os amigos. “A gente bebia bastante, fumava. Fazia tudo de errado na escola.” A vida amorosa também gerava conflitos para a jovem. “As coisas pioraram quando meu namorado me abandonou e começou a namorar minha amiga. Eu pensava em morrer.” Ela lembra que sentia uma inquietação constante e passava as noites acordada.

Diálogo

Daniela enfrentava pensamentos de suicídio quando conheceu o grupo Força Jovem Universal. Na época, ela estava com 15 anos. Lá, encontrou outros jovens que haviam passado pelo mesmo problema e começou a compartilhar sua dor. “Encontrei novas amizades, tive um verdadeiro entendimento sobre a fé e um encontro com Deus. Um dos membros do grupo, o obreiro André, me ajudou como se fosse um pai.”

Aos poucos, ela se aproximou da família e passou a realizar pequenas mudanças em sua rotina. “Praticava o que aprendia, coloquei toda minha força nisso. Também comecei a fazer exercícios físicos, faço ninjutsu. Entendi que o espiritual e o físico, juntos, ajudam a combater problemas de saúde. Você sente mais disposição”, conclui ela. Hoje, aos 23 anos, Daniela tem certeza de que aquela “dor profunda” era depressão.

Jovens deprimidos

A depressão é a principal causa de enfermidade e incapacidade entre jovens de 10 a 19 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela também é um fator que pode levar ao suicídio, a terceira maior causa de morte nessa faixa etária, atrás dos acidentes de trânsito e do vírus da Aids. O problema é tão sério que a OMS escolheu 2017 como o ano de combate à depressão.

No Brasil, 21% dos jovens de 14 a 25 anos têm sintomas de depressão, segundo dados do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Entre as mulheres, o número sobe para 28%. Já o número de suicídios na população de 15 a 29 anos cresceu 10% de 2002 a 2014, segundo o Mapa da Violência 2017, criado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e divulgado pelo Ministério da Saúde.

Desafios da adolescência

A depressão não tem uma causa única. Entretanto, as transformações típicas da adolescência podem deixar os jovens mais vulneráveis ao problema. A psicóloga Diana da Cunha destaca alguns dos desafios durante a transição da fase infantil para a adulta. “Nessa passagem, existem questões como as mudanças do corpo, dos hormônios, do comportamento, das escolhas. Os adolescentes estão questionando o mundo e construindo a própria identidade, então podem surgir problemas como depressão e uso de drogas. Por isso, a presença da família é muito importante”, explica a especialista da clínica Doktor’s.

A psicóloga lembra que o uso da internet e das redes sociais também pode estar relacionado ao aumento da tristeza entre os jovens. “Hoje, tem a questão da internet, do bullying, os jovens estão mais expostos. Nas redes sociais, alguns adolescentes não conseguem diferenciar o que é real ou não, acabam se comparando a um colega e ficam mais deprimidos”, diz ela.

Como identificar

Diana diz que os sintomas de depressão incluem tristeza, melancolia, agressividade e até dor de cabeça ou de estômago sem causa específica. Infelizmente, muitos pais não percebem os sinais ou imaginam que é algo comum da idade. “A depressão do adulto é diferente da do jovem. Como o jovem não consegue se expressar, ele fica mais irritado, mais estressado. Há ainda a questão da alimentação, insônia, cansaço, do isolamento.” Ela alerta que pais e responsáveis devem observar se os sintomas são constantes. “Se isso persistir por mais de duas, três semanas, é importante procurar um médico, um psicólogo.”

Dá para evitar?

A campanha da OMS destaca a importância do diálogo para quebrar tabus sobre a depressão e combater a doença. Diana da Cunha concorda e acrescenta que as famílias devem estabelecer vínculos com os jovens. “Os pais precisam conhecer os filhos, o comportamento deles, e avaliar possíveis alterações. É conversar mesmo, acolher, saber como foi o dia. Sabemos que uma parte dos jovens que não se sente acolhida em casa acaba buscando drogas, cigarros, bebidas.”

Dor insuportável

“É uma dor terrível porque você pensa que não tem solução, pensa que não tem que estar ali, que ninguém liga para você, o que não é verdade, mas é isso que a gente pensa.” É assim que Gabriel Morgado (foto ao lado) descreve o sofrimento que sentia aos 13 anos. Na época, ele havia mudado de Estado com os pais e enfrentava o fim de um relacionamento amoroso. “Como filho de pastor (ele é filho do bispo André Morgado), eu mudava de cidade toda hora. Então, o fim do relacionamento foi um baque na minha vida e eu não sabia o que fazer.”

Gabriel conta que passou a se isolar. “Não queria mais conversar com meus pais, não queria estar com eles.” Mesmo com o aumento da tristeza, ele não tinha coragem de contar o que sentia. “Você pensa que não vão te entender. Eu ficava com vergonha de falar. A gente diz que está tudo bem, mas não está.”

O bispo André Morgado (foto abaixo), responsável pela Universal no Estado da Paraíba, lembra que a depressão pode surgir mesmo em famílias cristãs. Por isso, os pais devem ficar atentos aos sinais. “Meu filho nasceu na igreja, tinha o nosso exemplo em casa. Para quem é da fé, é um susto. Isso é algo que pode acontecer sorrateiramente. Percebemos que nosso filho começou a se fechar no mundo dele, ficava o dia inteiro no quarto, ele reagia e ficava agressivo quando a gente ia conversar.”

Gabriel diz que chegou a tentar se matar. O ato foi impedido pelos pais. “Foi quando percebi que eu precisava de ajuda. Comecei aos poucos a me aproximar de Deus e a me relacionar melhor com meus pais”, conta o jovem.

Para enfrentar a situação, o bispo e sua esposa, Luciana Morgado, procuraram fortalecer ainda mais a relação com Gabriel por meio do diálogo. “Não adianta tentar mudar o filho à força, a imposição só gera mais agressividade. É importante trazer o filho para perto, como amigo. O jovem precisa sentir confiança para perguntar, expor seus pensamentos, pedir ajuda”, diz ele.

O bispo lembra que é necessário ter paciência e usar a fé. “A mudança não acontece da noite para o dia, os pais precisam respeitar o tempo do jovem e ir aconselhando, ensinando. E, nesse ínterim, eles devem usar a fé, orar, pedir a sabedoria de Deus para lidar com a situação.”

Luciana, mãe de Gabriel, destaca que não desistiu do filho mesmo quando ele não queria contato. “Eu ficava perto dele mesmo quando havia rejeição, eu perseverava, conversava, fazia coisas que o agradavam. Mas eu também sabia que era um problema espiritual, então fui para o Altar, orava, pedia a direção de Deus para lidar com tudo”, esclarece ela.

Para Gabriel, falar sobre o problema foi fundamental para que pudesse ver uma saída. “O que me ajudou na recuperação foi compartilhar com alguém essa dor. Quando a gente está com depressão, a visão é limitada, a gente só pensa no pior. Mas, falando com outra pessoa, a gente consegue abrir a visão.” Ele ainda acrescenta que a fé o ajudou a se fortalecer. “É importante manter uma relação com Deus porque com Ele a gente pode falar sem ter vergonha, pode extravasar nossa dor”, conclui Gabriel, que hoje estuda Engenharia e está noivo da estudante de Medicina Maria de Fátima Barros Sales, de 23 anos.

O bispo André Morgado lembra que a transição da infância para a idade adulta é um verdadeiro desafio para os adolescentes. “A maior batalha do jovem é na mente porque nesse período surgem dúvidas, conflitos, medos, a escolha da profissão. A melhor maneira de lidar com esse momento transitório é dividindo as questões com os pais. Se o jovem não tem apoio dentro de casa, é importante buscar o suporte de uma pessoa de fé, além de evitar más amizades e pensamentos negativos.”

Tristeza se prolongou até fase adulta

Desde a infância, Michele Silva (foto ao lado), de 30 anos, conta que sofria bullying na escola. “As crianças me xingavam, falavam que eu era feia. Eu não conseguia estudar e ficava isolada.” A jovem afirma que as perseguições na escola afetaram sua autoestima. Na adolescência, ela sofria com a insegurança e se viu cada vez mais isolada, até que abandonou a escola. “Nessa época, eu quase sofri um abuso sexual, isso foi outro trauma.”

Para tentar fazer amizades, Michele buscou as redes sociais. “Eu tentava preencher o vazio que sentia, mas me feri. Tive um envolvimento com um rapaz, mas ele não gostava de mim de verdade e sumiu.” Michele diz que a tristeza piorou e ela começou a ter insônia e passava os dias chorando. “Eu não me aceitava e não confiava nas pessoas, não tinha amizades.”

Ela revela que pensamentos de suicídio passaram a rondar sua cabeça quando tinha 25 anos. “Foi o acúmulo de tudo. Achava que minha vida nunca ia mudar, não via saída.” Foi nesse período que ela aceitou o convite de uma colega para ir a uma reunião da Universal. “Encontrei na Força Jovem Universal palavras de incentivo e novas amizades. Comecei a me valorizar mais, recuperei a autoestima e passei a cuidar do meu interior. Tive um encontro com Deus”, diz. Hoje, aos 30 anos, Michele tem novas perspectivas. “Terminei os estudos, estou trabalhando, tenho amigos e uma vida normal. Antes, tinha medo até de sair sozinha.”

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