Quando a rua se torna a casa

Por Ana Carolina Cury / Fotos: Demetrio Koch, Marcelo Alves e Arquivo Pessoal / Arte: Edi Edson

"Quando a gente corre com medo parece que as pernas não acompanham, né? ”, relata a autônoma Marli de Jesus Souza (foto ao lado), de 50 anos, ao contar sobre a vez que fugiu de um homem que tentava forçá-la a fazer sexo com ele.


Aos 14 anos, Marli fugiu de casa e foi morar na rua. Ela não sabia como lidar com a ausência da mãe e com o relacionamento ruim com os irmãos. “Eu ia para festas com amigos da escola e na volta dormia na calçada. Não queria ir para o meu lar. Os colegas me ajudavam com pratos de comida, mas, para conseguir aguentar aquela situação, comecei a beber e me viciei em maconha”, revela.

A realidade de quem mora nas ruas é dura. Frio, fome, doenças e discriminação são apenas algumas das dificuldades enfrentadas por quem vive nessa situação. E, quando se fala das mulheres, os problemas aumentam. Sem proteção, elas são vítimas da violência decorrentes de agressões físicas, estupros e ataques sexuais. Elas acabam vivendo péssimas experiências, como uma gravidez indesejada fruto de abuso e o envolvimento com drogas, entre outras, o que faz com que a possibilidade de mudar de vida se torne cada vez menor.

Além da Marli, a Folha Universal conversou com outras duas mulheres que concordaram em contar a razão de terem resolvido viver nas ruas e o que passaram durante os anos em que não tinham endereço fixo. Hoje, recuperadas, elas não querem apenas fazer parte de uma estatística genérica.

Presas sexuais

Marli diz que o centro da cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, se tornou sua casa. “Foram dois anos vivendo assim. Foi muito difícil. E, por ser mulher, muito mais. Tinha medo de dormir e ser violentada ou morta pela polícia, então não dormia. Usava drogas e bebia para ficar acordada e cochilava durante o dia”, desabafa.

Muitos homens se aproximavam dela para agredi-la e, esses momentos, para ela, são as memórias mais dolorosas. “Teve um homem que me arrastou até uma garagem e começou a abusar de mim. Eu não sei como, mas consegui empurrá-lo e fugi. De outra vez um homem me bateu muito. Depois desse dia me escondia pelas ruas com muito medo”, recorda.

Quatro anos se passaram e a família da autônoma não queria mais saber dela. Sem esperança de um futuro melhor, ela não via mais sentindo em viver. Contudo, uma oportunidade transformou o rumo de sua vida. “Uma colega, vendo minha situação, me procurou e me convenceu a ir à cidade de Santos, litoral paulista, com ela para tentar recomeçar. Lá, me ajudou a procurar emprego e consegui um trabalho de doméstica. Minha patroa era da Universal e ao saber de tudo que havia passado me convidou a ir a uma reunião com ela”, relata.

Cansada de sofrer, ela aceitou o convite. “Lá ouvi palavras de ânimo que me fizeram acreditar que ainda tinha jeito. Fui acompanhada pelos pastores e, pouco a pouco, me libertei de tudo que me levava à destruição: mágoas, ódio, bebida e drogas. Disposta a recomeçar, me lancei na fé”, conta.

Hoje, Marli está casada, tem seu próprio negócio e faz com que sua história seja uma fonte de esperança para quem está na mesma situação que ela esteve um dia. “Meu marido é um homem de Deus, meu trabalho é abençoado, vendo marmitas e toda semana vou com o grupo Anjos da Madrugada evangelizar pessoas que estão em situação de rua”, finaliza.

Violência doméstica

“Você vai apanhar.” Ednane Cezar da Silva (foto ao lado), de 36 anos, do lar, ouvia constantemente essas palavras do ex-marido que a agredia toda vez que ficava nervoso. “Aquilo acabou com o meu emocional. Tinha medo de denunciar e, sem saber o que fazer para sair daquela relação, decidi fugir de casa. Fui de Santos, no litoral paulista, até a cidade de Cosmópolis, no interior paulista”, declara.

Apenas com a roupa do corpo e sem documentos, Ednane, que estava com 22 anos na época, buscou o apoio que não teve pelas ruas e calçadas. “Estava amargurada. Outras pessoas que moravam nas ruas me apresentaram as drogas. Passei a usá-las para esquecer minha realidade. Não importava se era maconha, mesclado (mistura de maconha e crack) ou cocaína, o que valia era perder a consciência para não lembrar daquelas agressões.”

Marli e Ednane usavam substâncias químicas para esquecer a dor de não ter um lar. Assim, ao contrário do que se pensa, o uso de drogas entre as moradoras de rua muitas vezes é a consequência da situação e não ao contrário. Ou seja, quem está nessa condição recorre às substâncias ilícitas para “sobreviver” às dificuldades de não ter onde morar.

Mergulhada nesse universo, Ednane sentia cada vez mais a necessidade de consumir drogas. “Além disso, passei a me prostituir, a roubar e a agredir pessoas para manter o vício. Após oito anos nessa vida, um homem, que estava com a mãe, começou a reparar em mim nas ruas e me ofereceu ajuda”, relembra.

Para quem estava dormindo em cima das mesas de sinuca de bares ou pelas calçadas, a oportunidade de dormir em uma cama quentinha parecia irrecusável. “Esse homem, que hoje é meu marido, foi usado por Deus para me salvar. Ele e sua mãe, além de me darem roupas, comida e uma casa, me apresentaram a fé. Fui à Universal com eles e tive uma segunda chance de vida”, fala.

Não foi fácil para ela vencer os vícios, mas, com a ajuda dos obreiros voluntários da igreja e do marido, ela conseguiu superar. “Estava com 26 anos quando saí das ruas. Hoje há uma grande diferença em meu interior. Não uso mais drogas nem sofro mais violências físicas e verbais. Meu casamento é uma bênção e sou muito feliz. O que eu puder fazer para ajudar aquelas mulheres que passam pelo que eu passei eu farei”, conclui.

Vícios e influências

A Cracolândia, nome popular dado à região do centro da capital paulista em que se desenvolveu um intenso tráfico e uso de drogas, além de prostituição, é conhecida como inferno a céu aberto. Dentre centenas de viciados que vivem por lá, estava a cuidadora Tatiane Cristiana da Costa Silva (foto acima), de 35 anos.

Ela nunca imaginou que experimentar aquele cigarro no banheiro da escola a levaria a se tornar uma dependente química. “Ia na onda das minhas amigas. Depois, experimentei maconha e cocaína. Era curiosa, queria conhecer as sensações. Quando minha mãe descobriu, imediatamente me internou. Fiquei uma semana e pedi para sair. Fora de lá, nada mudou, continuei usando e dando trabalho para toda a família”, diz.

Aos 18 anos, Tatiane engravidou de um namorado e foi sua mãe quem cuidou da filha dela. “Saía para as ruas de segunda a segunda, não queria nada com nada a não ser usar drogas. Em 2009, minha mãe faleceu por causa de um câncer. Fiquei sem chão. Foi então que tudo piorou. Meu pai queria que eu morasse com ele e minha madrasta, mas eu não queria de jeito nenhum. Eu a odiava”, se recorda.

Forçada a morar com eles, Tatiane passou a roubar utensílios domésticos para manter o vício. Não demorou para que ela fugisse para as ruas e chegasse à Cracolândia. “Entrei para o tráfico, trabalhava de 'olheira' em uma boca de fumo para sustentar meu vício. Quando estava na Cracolândia, meu pai e minha madrasta iam atrás de mim para me levar para casa. Mas, quando os via, saía correndo pensando que iriam me internar”, diz.

Em 2014, ela foi presa porque estava portando 31 pedras de crack. “Estava há três dias sem dormir. Foi a pior fase da minha vida. Minha ficha caiu na prisão, quando me senti sozinha numa cela gelada. Os dias passaram e eu não recebia nenhuma visita. Até que minha madrasta passou a ir me ver e algumas voluntárias da Universal também”, afirma.

Depois de mais de um ano, ela decidiu ouvir o que aquelas voluntárias orientavam. “Eu já conhecia a Palavra de Deus desde os 4 anos de idade, só que não praticava. Aos poucos, fui sentindo a presença de Deus e fui tocada pelas lindas palavras que ouvia. No dia da minha liberdade, há dois anos, passei a ir à igreja”, conta.

Desconfiada, a família dela tinha muito medo de uma recaída. “Fiquei sendo vigiada. Meu pai me levava às reuniões aos domingos e não me deixava fazer nada sozinha. Eu aceitava e agradecia por isso, mas sabia que logo tudo mudaria. Hoje não tenho mais vontade de usar nada, amo minha família, minha madrasta e minha filha. Aqueles que me julgavam e não acreditavam na minha mudança se surpreenderam”, esclarece.

Hoje, Tatiane busca ajudar outras mulheres. “Acredito que muitas não têm a oportunidade que eu tive, apoio familiar e estrutura para que saiam das ruas. Me entristeço ao ver mulheres abandonadas, violentadas e obrigadas a estar nas ruas. Elas só precisam de uma chance, uma oportunidade para mudarem de vida”, conclui.

Braço estendido

O Brasil não conta com dados oficiais sobre a população em situação de rua nem com pesquisas específicas relacionadas às mulheres. Esta lacuna, segundo a psiquiatra Célia Mendes, prejudica a implementação de políticas públicas voltadas para este contingente e reproduz a invisibilidade social das mulheres no âmbito das políticas sociais.

“Estima-se que existiam, em 2015, 101.854 pessoas em situação de rua no Brasil. Nesse cenário, o que podemos afirmar é que as mulheres que vivem nessas condições são mais suscetíveis à violência, porque estão mais expostas a ataques e, desprotegidas, ficam vulneráveis”, esclarece.

Apesar de não existirem estudos relevantes, é fato que há um número crescente de mulheres que estão em situação de rua. Antônio Mateus Soares, sociólogo e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia, afirma que é preciso que ocorram com urgência campanhas e trabalhos mais direcionados para esse problema social.

“No âmbito da pesquisa, o que temos são experiências pontuais e constituídas de forma genérica sem peso estatístico, inclusive porque não há investimento público para tais estudos. A mulher em situação de rua tem seus direitos humanos e sua cidadania violados, o que fere de maneira agressiva a forma que ela se olha no espelho e que se autopercebe no conjunto da sociedade, ampliando sua vulnerabilidade e sua fragilidade social”, afirma.

Os especialistas explicam que muitas pessoas quando têm uma oportunidade real de ressocialização abandonam os vícios e as ruas. “Urge uma mudança cultural na sociedade para a garantia dos direitos e do respeito às mulheres para que elas possam ter condições de igualdade de oportunidades. É necessário dar condições para que as pessoas em situação de rua possam ressignificar suas vidas não apenas com o acolhimento digno, mas com políticas estratégicas que possam oferecer mudanças reais e significativas e não apenas temporárias”, observa a ativista Leila Regina Lopes Rebouças.

A Universal contribui para essa mudança. Por meio do grupo Anjos da Madrugada e de ações evangelísticas em todo o mundo, tem oferecido a chance de recomeço para elas. “A fé nos faz ter uma força sobrenatural. E nos faz acreditar em nós mesmos, por isso ela é fundamental na ressocialização de qualquer pessoa. Grupos de voluntários se reúnem diariamente para dar assistência aos necessitados. Levamos alimento, roupas, cobertores e principalmente a palavra de Deus para essas mulheres e homens também”, afirma o bispo Luiz Carlos Gomes da Silva (foto ao lado), atual responsável pelo Grupo de Evangelização da Universal no Brasil.

Ele afirma que tem presenciado mulheres resgatadas por meio desse trabalho. “Primeiro trabalhamos com a autoestima delas e em seguida falamos de Deus, da oportunidade de recomeçar. Assim como a Marli, a Ednane e a Tatiane, muitas já mudaram de vida após conhecer o Anjos da Madrugada”, acrescenta.

Mas ainda há milhares que precisam de ajuda. Olhar para elas com indiferença e julgamentos só piora a situação. Se o governo não conseguiu ainda uma medida eficaz para erradicar o problema, cada um, em seu universo individual, pode fazer um pouco.

Basta entender que por trás de cada moradora de rua há uma história triste de vida que não foi superada. Faça sua parte, seja por meio de uma doação ou de um trabalho voluntário. “Todos nós, em vez de questionarmos ou julgarmos, devemos nos empenhar cada vez mais em ajudar as mulheres que vivem nesta situação. A igreja visa levar a transformação completa para a vida delas, sabendo que não é apenas o auxílio físico e material que vai proporcionar tal mudança, mas, sobretudo, o espiritual”, conclui o bispo Luiz.


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