O que é ser desonesto para você?

Por Katherine Rivas / Fotos: Fotolia

Há 20 anos, a Dinamarca ocupa o primeiro lugar no ranking dos países menos corruptos, elaborado pela ONG Transparência Internacional. Sob o nosso olhar, um conto de fadas: mercados e livrarias não precisam de atendente para cobrar o pagamento dos produtos vendidos, as pessoas fazem isso espontaneamente. Crianças andam pelas ruas sem grandes riscos, políticos se locomovem a pé ou de transporte público e a polícia é uma instituição confiável. Já a 9.669 quilômetros dali, está o Brasil, a “terra do jeitinho”, que ocupa a 79ª posição no mesmo levantamento e atravessa alguns escândalos de corrupção.

Paulo Niccoli Ramirez, doutor em Ciências Sociais e professor da Fundação de Sociologia e Política de São Paulo, explica que esse cenário surgiu no período da colonização, em 1530, quando o pensamento de fazer o menor esforço possível chegou com os colonizadores, o que deu lugar à “cultura do jeitinho”. “Os países nórdicos têm um pensamento coletivo, o Brasil não. Em uma discussão no Brasil alguém vai falar “você sabe com quem está falando?, reflexo de desigualdade e nepotismo. Se fosse na Inglaterra, talvez a pessoa dissesse “quem você acha que é para falar assim comigo?”, prova de que ninguém pode quebrar a ordem social”, comenta.

Para o especialista, características de uma sociedade individualista são perceptíveis em comportamentos e condutas simples como, por exemplo, furar a fila, estacionar na vaga destinada ao idoso e até nas letras de músicas com frases como “é devagar, é devagar, devagarinho” ou “deixa a vida me levar”. “O problema principal e ainda mais grave é que o brasileiro enxerga corrupção no Poder Público, mas não enxerga em seus pequenos hábitos. A maioria julga de corrupto o político que leva parentes para ocupar cargos de confiança no governo, mas contrataria familiares na própria empresa. Protesta nas ruas pelo fim da corrupção, mas deve impostos, não paga seus funcionários, entre outros”, alerta o especialista.

Como define o historiador Sergio Buarque no livro Raízes do Brasil, o País possui uma raíz profunda e que causa grandes danos aos brasileiros. É a cultura da cordialidade. Ela faz com que as pessoas sempre coloquem exceções às regras e amenizem os problemas ao agirem com o sentimentalismo. “É comum vermos, por exemplo, um aluno que estourou em faltas nas aulas e depois vai até o professor chorar para que ele dê ‘um jeito’ de ajudá-lo. Uma atitude que muitos não acham ruim”, comenta Niccoli.

Há solução?

Para o cientista social, o quadro atual é crítico. Na sua opinião, para mudar o Brasil seria preciso mexer com a base educacional, além do “sistema de privilégios” e cita algumas alternativas.

Educação: transformar o sistema educativo em um bem social e igualitário. Hoje, educação é um privilégio, ferramenta de ascensão e mercadoria. Niccoli aponta que o pior erro foi a reforma educativa que colocou história e ética como matérias optativas, o que pode acabar com os valores sociais.

Gestão e governo: A educação igualitária permitirá que mais pessoas superem a pobreza e levem novos valores às instituições. Hoje, a educação é um divisor de classes sociais. Niccoli garante que uma boa base educacional pode mudar também as empresas e o governo.

Imprensa: para o especialista, a mídia brasileira contribui com a desonestidade por ser parcial e vinculada a grupos econômicos. “A mídia brasileira (no geral) gera autocensura, mas é corrupta. A solução é democratizar o acesso da mídia à sociedade.”

Outros fatores

Uma distribuição de renda mais justa no Brasil pode melhorar o contexto, mas não vai erradicar a corrupção nem a violência. “Menos desigualdade não necessariamente significa honestidade generalizada. É uma questão cultural”, diz Niccoli. Para ele, ações individuais de honestidade no cotidiano ajudam a despertar o espírito coletivo. “Se esperarmos pelos políticos nada acontecerá.”

Niccoli vê o período de crise política e econômica do Brasil como uma chance para a população criar um senso crítico sobre corrupção, direitos trabalhistas, acesso à educação e cobrar das autoridades. Ele conclui que a prioridade deve ser pôr fim à sociedade de privilégios públicos e privados.

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