O drama do negro no Brasil

Por Rê Campbell / Fotos: Marcelo Alves / Arte: Edi Edson

Quase todo mundo já ouviu falar em racismo no futebol. Dezenas de ofensas contra jogadores foram noticiadas nos últimos anos em todo o mundo. Foi assim no caso do jogador Daniel Alves, ofendido na Espanha, e no do goleiro Aranha, do Santos, que foi chamado de “macaco” por uma torcedora do Grêmio. Apesar do absurdo desse tipo de situação, a maioria das injúrias é esquecida em pouco tempo e novos episódios continuam a ocorrer.

Enquanto campanhas tentam combater o problema dentro de campo, o preconceito continua presente no dia a dia da sociedade brasileira. Ele está em piadas, olhares e comentários grosseiros a respeito do cabelo, dos traços do rosto e da cor da pele.

Ofensas racistas costumam ser camufladas pela crença de que em nosso país não existe discriminação e que todos convivem em harmonia. É com essa desculpa que muitos negros ainda recebem tratamento desigual e sofrem humilhações, xingamentos, exclusão e agressões físicas.

No cotidiano

A bacharel em Direito e gestora de eventos paulista Graziele Macedo, de 34 anos, conta que já sofreu preconceito. “Sempre estudei em colégio particular, era a única negra da turma. Ouvia comentários racistas por causa do meu cabelo e da minha pele. Já adulta, ouvi pessoas falarem a seguinte frase: ‘você não é negra, você é morena, você é bonita’. Ou seja, o negro é feio?”, questiona.

Ela garante que não se deixa abalar pelo racismo. “Às vezes, o negro acredita que está em posição inferior e fica preocupado de entrar em certos lugares. Acho que os espaços estão aí para todos, precisamos perseverar. Mais importante do que aparência ou poder aquisitivo é a segurança com que a pessoa se expressa, a postura, a educação, os valores que ela tem.”

Você pode

Perguntado sobre a existência do racismo na sociedade brasileira, o bispo Bira Fonseca, responsável pelo trabalho de língua inglesa da Universal em Nova Iorque, nos Estados Unidos, responde que o racismo só não existe para quem não é vítima. “Quem bate não sente, quem apanha é que sente a dor”, analisa ele, que faz palestras pelo mundo com o tema “Você é negro e você pode”.

Fonseca diz que para evitar que a discriminação sofrida vire complexo de inferioridade é importante acreditar em si mesmo. “Vivo nos Estados Unidos há sete anos. Já morei em três países que sofrem muito com o racismo: Brasil, África do Sul (por seis anos) e Estados Unidos. A diferença é visível: no primeiro, o racismo é camuflado; no segundo, a separação entre negros e brancos é visível; e o único lugar do mundo onde o negro tem o seu valor e espaço é nos Estados Unidos. Aqui temos mais médicos, advogados e apresentadores negros do que no Brasil. Martin Luther King, Rosa Parks e Nelson Mandela lutaram muito contra a segregação racial, mas o preconceito ainda existe. Acho que cada pessoa precisa vencer o racismo dentro da vida dela. Se alguém diz que sou um derrotado, eu mostro que posso vencer a batalha. Calo o racismo com a minha atitude.”

Ele acredita que as cotas não são a única solução para que o negro conquiste o próprio espaço. “Com cota ou sem cota, você tem que arrebentar.”

O bispo Bira Fonseca aponta que a fé é o caminho para o fim do racismo. “A solução está na fé. Primeiro, a fé para acreditar no negro. Autoridades, governantes, instituições e empresas privadas devem ter fé no negro e saber que ele tem o mesmo potencial do que um branco ou um amarelo. E, segundo, o negro precisa ter fé em Deus e fé nele mesmo.”

O racismo é real

Não é possível determinar o número de ofensas racistas que ocorrem por ano. Entretanto, pesquisas comprovam que a população negra ainda sofre tratamento desigual no País e tem menos oportunidades do que a população branca. O alerta é da professora-doutora Isabel Cruz, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Saúde e Etnia Negra (Nesen), da Universidade Federal Fluminense.

Ela afirma que o racismo está profundamente enraizado na sociedade brasileira e faz parte do funcionamento de instituições públicas e privadas. Segundo Isabel, a discriminação existe para manter o poder econômico e os privilégios de determinados grupos. Ou seja, as pessoas têm direitos iguais no Brasil, mas na prática há grupos mais protegidos e outros mais vulneráveis.

“Os dados de mortes violentas entre jovens brancos e negros revelam que existem diferenças absurdas. O número de negros mortos é muito maior. Essa diferença é baseada em injustiças. Independentemente da questão social ou do poder econômico, o preto é morto por ser preto. Quem olha para o preto pode ter uma interpretação estereotipada de quem ele é com base na cor e fazer um julgamento sumário.” A professora, que é negra, desenvolve projetos na área da saúde pública com o objetivo de desconstruir a visão distorcida dos profissionais e garantir tratamento igualitário para todos os pacientes.

Ela lembra que a insuficiência de políticas de punição e prevenção ao problema acaba estimulando comportamentos racistas nas relações interpessoais. “O racismo institucional gera vítimas indefesas e também algozes. A pessoa que comete o ato discriminatório sabe que ficará impune”, completa Isabel.

Em números

A maioria da população no País é negra – 50,7% dos brasileiros se declararam pretos ou pardos, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010. Apesar disso, os negros não estão presentes da mesma maneira na política, na educação, na saúde e nos cargos de liderança das grandes empresas.

Uma enquete feita pelo jornal Folha de S. Paulo mostra que apenas 18% dos negros brasileiros ocupam posições de comando. Já o censo do Poder Judiciário aponta que apenas 1,4% dos 16.812 juízes brasileiros
são negros.

Os dados também assustam quanto ao número de mortes: 320 mil pessoas negras foram mortas por armas de fogo entre 2003 e 2012. Nesse período, a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1%, enquanto o número de pessoas brancas mortas caiu 23%, segundo o Mapa da Violência 2015, elaborado pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz.

Tem solução?

A professora-doutora Isabel Cruz destaca que os governos precisam colocar em prática mais medidas para acabar com as desigualdades e os diversos tipos de discriminação no País. Entretanto, ela diz que outro passo importante é que cada pessoa se conscientize sobre a questão e analise as próprias atitudes. Afinal, a discriminação é um problema coletivo, de todos os brasileiros.

Isabel acredita que muitos impasses seriam resolvidos se houvesse mais respeito e apoio mútuo entre os cidadãos. “Ninguém é obrigado a amar, mas todos devem respeitar o outro. Esse é um exercício diário que exige humildade e reflexão.”

E para aqueles que sofrem discriminação? Isabel compartilha um conselho de família: “Entendo que a melhor estratégia de empoderamento pessoal é estudar para vencer. Estudar, se construir como pessoa, como cidadão. E todo ser humano precisa saber quem ele é, qual é o seu papel no mundo, por mais que isso seja doloroso. Com essa consciência, a pessoa não reage, ela responde ao mundo.”

Já o professor de sociologia e direitos humanos Ivair Augusto Alves dos Santos defende que os governos municipais, estaduais e federal façam investimentos reais para combater o racismo e suas consequências trágicas, como os assassinatos e a negligência na saúde. “O governo federal tem algumas medidas tímidas, como cotas em universidades e em concursos públicos, mas elas ainda são incapazes de mudar a estrutura. O racismo mata e exclui e o que os governos estão fazendo para reverter isso? Por que não temos negros em conselhos de grandes empresas? E por que tantos negros são mortos? Isso é um escândalo”, argumenta o especialista, que é autor do livro Direitos Humanos e as Práticas de Racismo.

Preconceito na internet

Recentemente, o ator Kaik Pereira, de 13 anos, foi vítima de racismo em um comentário compartilhado em seu perfil no Instagram. O jovem, recém-contratado da Rede Record, foi insultado por um internauta adolescente, que o chamou de “macaco”, entre outros comentários violentos.

“Eu não ligo para essas coisas, não. Tem muita gente que tem preconceito. Já vivi outras situações parecidas, mas sei que é preciso acabar com esse negócio”, disse o ator, em entrevista ao portal R7.

O menino recebeu o apoio de vários fãs, que enviaram mensagens positivas. A mãe de Kaik, Fabiana Pereira, afirmou ao portal que o agressor já foi identificado e que ela vai lutar pelos direitos do filho. “Até agora eu estou horrorizada. Não posso deixar isso ‘barato’. Como mãe, me sinto injustiçada.”

"Você tem traços de branco. Seu nariz não é achatado"

“Vivemos uma utopia de democracia racial, mas aqui só não existe racismo nas pesquisas, em que a maioria dos entrevistados afirma não ter qualquer preconceito de cor. No entanto, basta olharmos à nossa volta para comprovar que a realidade é bem diferente. Certa vez, uma pessoa me disse ‘você é um negro, mas tem traços finos, de branco, seu nariz não é achatado’. É duro ter de ouvir uma coisa dessas e a pessoa achar que está elogiando, quando, na realidade, se trata de um preconceito velado que vem sendo passado às novas gerações. O racismo é algo aprendido, ninguém nasce racista. Precisamos evoluir e tratar todos com respeito, independentemente da cor de sua pele.” Vagner Silva, diretor de arte

"Você mora nos Jardins? É a mulher do zelador, né?"

“Ser nordestino no Sudeste é difícil. Nordestino e negro então... Sou baiana e lá existem pessoas preconceituosas, mas eu nunca percebi tanto isso como desde que vim para São Paulo. Em uma hamburgueria nos Jardins disseram que eu era a babá das minhas primas, que são brancas. Já ouvi que meus traços eram finos e que eu ia me dar bem aqui e me casar com um partidão. Enquanto fazia as unhas em um salão na região dos Jardins, uma pessoa perguntou se eu morava por ali e eu respondi que sim. Aí ela questionou se eu era a mulher do zelador. Já fui olhada de alto a baixo em um restaurante caro. Detalhe: eu era a única pessoa negra almoçando ali. Às vezes, sinto pena das pessoas que fazem comentários racistas. Em outras ocasiões, o sangue ferve.” Núbia Onara, jornalista

Não parece, MAS É

No ano passado, um grupo de estudantes da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, iniciou uma campanha para dar voz aos alunos negros da instituição. Os universitários foram convidados a tirar uma foto segurando placas com comentários racistas já ouvidos por eles.

Há algumas semanas, estudantes da Universidade de Brasília decidiram criar um projeto semelhante, que contou com fotos postadas em uma rede social. A ideia do grupo brasileiro foi mostrar que sim, o racismo existe, mesmo quando as pessoas não se dão conta.

Pensando nisso, convidamos alguns membros de nossa equipe aqui na Folha Universal a comentar o tema e citar as frases racistas mais bizarras que eles já ouviram.

"Você trabalha aqui?"

“Se eu pudesse materializar o termo preconceito em uma palavra, ela teria quatro letras: nojo. Deveria ser algo tratado como intolerável, em vez de cair apenas nas graças do politicamente incorreto. É só você se perguntar: gostaria que fizesse o mesmo com você? E se inferiorizassem você por causa da sua cor? Nasci em um lar em que desde cedo me ensinaram a ser dona de grandes conquistas por esforço próprio e sem me rebaixar à opinião incoerente de outros que pensam que não posso alçar voos altos por causa do meu tom de pele. Sou filha de funcionários públicos, frequento bons lugares – mesmo que muitas vezes tenha que enfrentar quem torça o nariz. Nas lojas que frequento, já perguntaram se eu trabalhava ali. Mas isso não me incomoda: ando de cabeça erguida.” Flavia Francellino, jornalista

“Tinha que ser negrão”

“Desde a minha infância, ouço frases que procuram diferenciar as pessoas por sua condição racial. Se um branco pratica um crime, por exemplo, jamais a sua condição racial é trazida à tona para justificar a ação. No entanto, sempre que um negro faz algo errado, costumo ouvir a frase ‘mas olha a cor dele, tinha que ser negrão’, como forma de justificar o delito. E como consequência todo negro passa a ser visto como criminoso. Já está mais que na hora dessa generalização burra acabar. É preciso ver que pessoas inteligentes existem em todas as cores.” Eduardo Prestes, jornalista

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