Humilhação sem limites

Por Rê Campbell e Michele Francisco / Fotos: Fotolia, Arquivo Pessoal e Michele Francisco / Arte: Edi Edson

No dia 20 de outubro, uma escola particular de Goiânia, em Goiás, foi palco de um tiroteio que deixou dois estudantes mortos e outros quatro feridos. O autor dos disparos foi um aluno de 14 anos, que levou para a escola uma pistola da mãe. Ele é filho de policiais militares. O crime ocorreu por volta das 11h50, na sala de aula, quando o estudante retirou a arma da mochila e começou a atirar, atingindo primeiro os dois jovens que morreram no ataque.


Segundo reportagem da Agência Brasil, o adolescente disse à polícia que era vítima de bullying e que se inspirou nos casos da escola de Columbine, ocorrido nos Estados Unidos, em 1999, e de Realengo, no Rio de Janeiro, registrado em 2011. O autor dos disparos foi transferido para um centro de recuperação de adolescentes infratores enquanto aguarda sentença definitiva da Justiça. A mãe dele chegou a ficar internada por alguns dias em estado de choque, mas já recebeu alta. Uma das jovens baleadas perdeu o movimento das pernas.

Bullying

Ainda é cedo para tirar conclusões sobre o caso. Entretanto, a menção ao bullying merece uma reflexão sobre o tema. No Brasil, um em cada dez estudantes de 15 anos é vítima frequente de bullying nas escolas. Esses adolescentes sofrem ataques repetitivos que incluem apelidos pejorativos, insultos, boatos maldosos e agressões físicas. O dado faz parte do terceiro volume do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015, análise aplicada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre estudantes de 72 países.

No mundo, 130 milhões de estudantes entre 13 e 15 anos foram vítimas de bullying, o que representa um em cada três jovens, segundo o relatório "Um Rosto Familiar: A violência nas vidas de crianças e adolescentes", do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O psiquiatra Luiz Scocca explica que o bullying pode gerar consequências graves. “O bullying pode ocasionar vários transtornos psiquiátricos, particularmente a depressão, e até questões mais graves, como suicídio ou mesmo o assassinato, mas o caso de Goiânia não pode ser compreendido apenas à luz do bullying, pois não temos outros detalhes”, pondera.

A psicóloga Maria Tereza Maldonado (foto acima) concorda que o bullying pode levar a vítima a atitudes extremas, mas isso depende de algumas condições. “Passar da imaginação para a ação e planejar um ato como o homicídio pressupõe um problema emocional maior”, pontua ela, que é autora dos livros A face oculta: uma história de bullying e cyberbullying e Bullying e cyberbullying – o que fazemos com o que fazem conosco?.

A especialista diz que as intimidações afetam a saúde física e mental e podem se estender ao ambiente digital, o chamado cyberbullying. “O bullying gera sofrimento e reações no corpo. A criança pode ter dores de estômago, de cabeça ou ataques de ansiedade. No cyberbullying, a tecnologia é usada para fazer intimidações e fragilizar a vítima. Ainda há pouca conversa entre pais e filhos sobre o uso responsável da tecnologia e das redes sociais”, alerta.

Outros atiradores

Nos Estados Unidos, um estudo feito com 31 jovens que realizaram ataques com arma de fogo em escolas entre 1995 e 2015 indicou que todos tentavam se encaixar no padrão percebido como ideal de masculinidade. A pesquisa, publicada no periódico Gender Issues, mostrou que eles eram socialmente rejeitados e vítimas de bullying, o que os levou a desenvolver um rancor profundo por colegas de classe e professores.

Os pesquisadores da Universidade Estadual de Portland destacaram no estudo que quando os jovens não se enquadram ao conjunto de regras de comportamento esperado para os meninos, eles passam a ser vistos como inadequados por seus pares e sofrem perseguições. O levantamento mostrou que dez dos 31 jovens tinham histórico de problemas psiquiátricos; outros dez tinham famílias extremamente abusivas; e os 11 restantes tinham tendência a reagir de forma explosiva quando se sentiam injustiçados. Embora casos de tiroteio e homicídio sejam exceção, os estudiosos defendem a criação de espaços nas escolas para que se discutam os estereótipos de masculinidade como forma de ajudar a evitar o bullying.

Ataques

Durante a infância e adolescência, Felipe Urios (foto ao lado), de 26 anos, foi alvo de perseguições na escola. “Por eu ser um aluno mais quieto, reservado, não ter namorada, eles me chamavam de ‘gay’, ‘baitola’, eu tinha vários apelidos”, diz. Apesar das humilhações constantes, o jovem não encontrou apoio para resolver o problema. “Não pedi ajuda aos meus pais, pois tinha medo deles. Na escola, cheguei a falar com a diretora, mas ela disse para ‘não ligar’, pois era algo normal.” Em uma ocasião, ele chegou a jogar um objeto no grupo que o humilhava. Todos foram levados para a diretoria, mas o bullying continuou.

Aos poucos, as intimidações na escola levaram o jovem a se isolar. Ele lembra que não tinha amizades. “Eu ficava triste, me sentia inferior, me achava o mais feio.” Felipe conta que a situação piorou quando os colegas descobriram a fé dele. Até sua família foi alvo de ofensas. “Eles xingavam meus pais, zombavam da situação que eu passava em casa.”

Mesmo com as intimidações sistemáticas, Felipe conseguiu se fortalecer e recuperar a autoestima com a ajuda da fé. “Passei a ver o mundo de outra forma e compreendi que eu não queria viver o modo de vida deles”, afirma. “Eu estava perdendo a minha identidade e os meus valores, então passei a defendê-los”, conclui.

A psicóloga Maria Tereza Maldonado diz que muitas vítimas de bullying não falam sobre a situação. “O filho às vezes não conta por medo de os pais buscarem a escola e a situação piorar. E realmente muitas escolas não fazem nada. Também há famílias que não têm momentos de interação, de conversa, está cada um isolado em seu canto”, analisa.

Um ano sem estudar

A securitária Valneide da Conceição (foto ao lado), de 35 anos, também vivenciou uma rotina de humilhações que incluía apelidos pejorativos e agressões físicas durante o período escolar. No início, ela explica que a timidez e o fato de gostar de estudar geravam as perseguições. Já na adolescência, ela passou a sofrer bullying por nunca ter namorado. “Certa vez, uma menina mandou dois meninos sentarem ao meu lado para tentar me beijar à força, foi quando levei o problema para a diretoria. Depois, a professora me chamou para conversar e me colocou em uma situação como se eu fosse a errada”, lembra. “Nunca tive um professor que chegou na classe e ensinou aos alunos a importância de respeitar o próximo.”

Valneide afirma que passou a guardar mágoas e ressentimentos e foi se tornando uma pessoa que desconfiava de todos. Ela não contou aos pais sobre o bullying por medo do tipo de reação que enfrentaria. “Eu já vinha de um lar destruído, meu pai era agressivo, não tive coragem de levar aquela situação para dentro de casa.”

As humilhações constantes destruíram a autoestima de Valneide, que passou a ter medo de sair de casa e abandonou a escola. “O que eu mais gostava era de estudar, mas fiquei desesperada e desisti. Fiquei um ano sem estudar e sem sair de casa”, relata. Ela só voltou aos estudos depois que mudou de escola.

A tristeza e a amargura fizeram parte do cotidiano dela por muitos anos. Além disso, Valneide diz que passou a ser agressiva. “A qualquer ameaça de que eu poderia ser agredida ou injustiçada eu já me adiantava em tomar uma atitude.” Os problemas só foram superados na idade adulta, com a ajuda de encontros do grupo Godllywood. “Com o curso da Cura Interior, descobri que muitas das minhas atitudes e a minha agressividade foram decorrentes dos traumas que eu tive”, conclui.

Ele perseguia os outros

Durante muitos anos, Carlos Henrique Moraes (foto ao lado), de 29 anos, perseguiu, humilhou e xingou colegas de escola. “Fui criado apenas pela minha mãe, não tinha a figura de pai junto comigo, isso me trouxe uma revolta.” Ele conta que a passagem da infância para a adolescência foi conturbada.

“Eu me juntava com alguns colegas e quando víamos uma pessoa mais frágil, com jeito diferente, nós tínhamos preconceito e corríamos atrás, rasgávamos a roupa, dávamos risada dela”, lembra. Carlos diz que a ação ocorria sempre na presença de outros jovens. “Eu agia dessa maneira para mostrar que eu tinha poder, que era o bambambã.”

Ele explica que só percebeu o mal que provocava a outras pessoas depois de adulto, quando passou a participar de reuniões da Universal. “Compreendi o que os meus traumas causaram em mim e pude entender a dor que as pessoas sentiam por causa das minhas atitudes. Hoje sou diferente do que eu era e ajudo outras pessoas”, esclarece.

Relações familiares

O psicólogo Wanderlei Oliveira destaca que as más relações familiares podem influenciar diretamente no envolvimento de estudantes com o bullying. É isso que apontou sua tese de doutorado desenvolvida na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP/USP). A pesquisa foi feita com 2.354 jovens com idade entre 10 e 19 anos de escolas públicas de Uberaba, em Minas Gerais. “Tanto para o estudante que pratica quanto para o que sofre bullying, nossa pesquisa identificou que eles estão inseridos em famílias não funcionais, com relações marcadas pela falta de comunicação, conflitos conjugais entre os pais e punições físicas contra os filhos”, diz.

Segundo Oliveira, a falta de diálogo e afetividade dentro de casa coloca as crianças em situação de vulnerabilidade. “O clima ruim em casa impede que a vítima peça ajuda, pois ela não se sente segura. Se a família não está atenta, não há sensibilidade para identificar a dor”, esclarece ele, acrescentando que as vítimas de bullying costumam ter mudanças de comportamento e passam a apresentar insônia e ansiedade e até a praticar automutilação.

Ele explica que o bullying deve ser combatido em uma parceria entre família, escola e profissionais de saúde, com ações de longo prazo. “A vítima precisa ser acompanhada para se fortalecer e conseguir responder às agressões com mais habilidade social e o agressor precisa ser sensibilizado para o quanto isso é grave. O bullying não pode ser visto como algo normal. Essa violência não pode ser tolerada”, detalha.

Luiz Scocca acrescenta que a orientação às testemunhas que presenciam o bullying também é fundamental para quebrar o ciclo de agressões. “Sem testemunhas, praticamente não há bullying, pois os agressores precisam de plateia. As testemunhas devem ser educadas, orientadas a reprovar a ação e a denunciar o problema. Tão grave quanto participar é se omitir”, finaliza.

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