A videira da morte

Por Andre Batista (*)/ Imagem: Thinkstock

Eu neguei o pedido do rei. Disse que não venderia. Não venderia porque foi de meu pai, e o que é de herança não se vende. É a lei do Senhor.

Caminho sem pressa pela minha última estrada, sabendo que de nada mais adianta gritar ou espernear. O fim está próximo e não há o que se possa fazer.

“Dá-me a tua vinha, para que me sirva de horta, pois está perto, ao lado da minha casa. Dar-te-ei por ela outra, melhor; ou, se for do teu agrado, dar-te-ei em dinheiro o que ela vale”, ele disse.

Em qualquer outra circunstância eu teria aceitado. Primeiro por ser um pedido que o rei Acabe fez pessoalmente. Depois porque, como todo jezreelita, eu precisava de dinheiro para sobreviver.

“Guarde-me o SENHOR de que eu dê a herança de meus pais”, respondi, sem saber que assinava minha sentença de morte.

Da videira Acabe saiu desgosto. Indignado com minha atitude, mas sem ter como remediar. Eu, tolo, pensei que muito iriam falar de mim: “Nabote de Jezreel, o homem que recusou a oferta do ganancioso rei da Samaria.” Sonhei que meu nome entraria para a História. Nunca entrará.

Os homens que me empurram precisam de pouca força. Por serem vários, sedentos por sangue, sinto-me como se levitasse enquanto caminho sem dar passo algum. Uns me ofendem, outros têm pena. A maioria carrega no olhar a curiosidade e a certeza de que mais uma vez o rei, que já é malvisto aos olhos do Senhor, está punindo um inocente.

Acontece que, movido pelo veneno da rainha idólatra, dois homens testemunharam contra mim. Disseram que eu blasfemei contra o rei e contra o Senhor. E eu nunca vi esses homens na minha frente. Eles sequer conheciam meu nome antes de hoje, quanto mais minhas atitudes.

Mas a verdade de Deus é a verdade única. E mesmo que os homens tenham me sentenciado à morte, sei que no Senhor eu vivo.

Jogam-me contra a parede e se distanciam. Cada um com suas pedras nas mãos e seu ódio no rosto. Depois de hoje, o rei poderá ter minha videira, mas ela não mais dará vinho. Apenas meu sangue escorrerá de seus frutos.

Eles vão atirar.

Olho o rosto dos meus carrascos e enxergo apenas homens movidos pela excitação de cumprirem uma lei, mesmo que o julgamento tenha sido falso.

Eles vão atirar.

Inicio minhas orações ao Senhor. Talvez Ele me salve. Talvez lembre que estou sendo punido por cumprir a lei, e não por desrespeitá-la.

Eles vão atirar.

No lugar em que os cães lamberem o meu sangue, cães lamberão o sangue desse maldito rei.

Eles vão atirar.

Alguém dá a ordem e os punhos se erguem.

Eles atiram.

E eu fecho os olhos para sentir o meu fim.

(*) 1 Reis 21:1-13

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