É possível recuperar o irrecuperável?

As estatísticas mostram que o número de mulheres envolvidas com o crime tem aumentado. E elas entram neste mundo cada vez mais cedo. É possível mudar isso?


Por Eduardo Prestes / Fotos: Demetrio Koch, Cedidas e Arquivo Pessoal

Não existe um levantamento atualizado em relação à quantidade das menores de idade envolvidas com o crime no Brasil. Hoje, das 484 unidades de atendimento socioeducativo, 418 são exclusivamente masculinas, 37 femininas e 29 mistas. O percentual de menores do sexo feminino que entram para o mundo do crime é de 4% do total. Embora aparente ser um índice pequeno, parece ser consenso entre especialistas, familiares de jovens e voluntários que atendem nessas instituições que ele vem aumentando e que as mulheres estão entrando para o crime cada vez
mais cedo.

Tendência
A tendência é que, ao alcançar a maioridade, grande parte delas continue com práticas criminosas que levem à prisão ou até à morte. A equipe da Folha Universal conversou com algumas jovens que passaram por instituições socioeducativas para menores para saber o que as levou a cometer atos ilícitos e como elas conseguiram encontrar uma alternativa que as tirou do mundo do crime.

Envolvida no tráfico
Ingrid de Souza tem 27 anos (foto acima) e é formada em pedagogia. Ela conta que o envolvimento dela com o crime começou muito cedo. “Eu tinha sete anos quando meus pais se separaram. Eu cresci revoltada com aquela situação. Eu morava com a minha mãe, mas não existia diálogo entre nós”, revela.

Com o passar do tempo, os conflitos com a mãe aumentaram. “Com 14 anos decidi fugir de casa. Andando pela rua conheci um rapaz na favela. Ele tinha envolvimento com o tráfico de drogas e por causa dele entrei para o mundo do crime. Ele me apresentou a outras pessoas que já estavam nessa atividade. Comecei a participar de ações ligadas ao tráfico: entregava, vendia e também usava drogas, desde maconha até mesclados. Eu também era viciada em bebidas e cigarro”, lembra.

Ingrid diz que logo se envolveu em outro relacionamento, desta vez com o chefe do tráfico. “Eu também participava de outras atividades criminosas. Fazia sequestros relâmpago. Minha função era atrair as vítimas. Como eu era jovem e bonita, era usada como isca, mas sempre havia mais oito ou nove pessoas dando apoio. Eu era fria e sabia cumprir muito bem esse papel”, diz.

Mas os dias de crime de Ingrid estavam contados. Em uma ação com outros comparsas, ela foi pega pela polícia. “Tínhamos sequestrado uma pessoa que foi levada para o cativeiro dentro da favela. Como íamos fazer uma festa à noite, pegamos os cartões e as senhas da vítima e fomos ao supermercado. Gastamos R$ 2 mil. Como a família da vítima já tinha feito um boletim de ocorrência em razão do seu desaparecimento, o cartão não passou. Viram que ele não era nosso, fomos levados para a sala de averiguação e chamaram a polícia”, conta.

Enquadrada
A jovem foi presa por sequestro e tráfico. “No cativeiro onde a vítima estava, o menino que foi preso disse que as drogas eram todas minhas. Como eu era menor de idade fui para uma unidade de internação provisória. Meu pai é policial e quando me viu atrás das grades até chorou. Na hora eu refleti e não quis mais me envolver com o crime, mas depois voltei”, recorda.

O arrependimento dela durou pouco. Depois de cumprir as medidas socioeducativas que tinham sido determinadas, Ingrid só pensava no que iria fazer fora da instituição. “Meu lema era ‘não acaba não, mundão, que eu tô chegando’. Tive que voltar a morar com a minha mãe e os conflitos logo recomeçaram. Não voltei ao tráfico, mas o consumo de drogas era diário, com bebidas e cigarros nas baladas. Uma vez, em uma briga com outra menina, ela cortou meu rosto e levei 32 pontos”, explica.

Votos de fé
Ingrid recorda que a mãe dela não falava nada sobre o que acontecia. “Como ela era da Igreja, foi lidando com a situação do jeito dela, orando por mim. Eu era afastada, até que chegou uma hora que eu percebi que aquela vida não me levaria a lugar nenhum. Voltei a estudar. Quando retornei para a Igreja, estava bebendo todos os dias e na prostituição. Usava até um aplicativo para marcar encontros. Reconheci que precisava de Deus na minha vida. Tenho certeza que os muitos votos que minha mãe fez por mim me ajudaram”, pondera.

Resgate
A jovem lembra que a sua mudança não aconteceu de uma hora para outra. “Uma moça me convidou para ir à Universal. Fui em um domingo. Lembro de um voluntário falando que ao final do encontro não fosse embora, pois tinha um presente para me dar. Ganhei um livro chamado Resgate. Eu li e depois disso passei por alguns grupos até chegar ao Universal Socioeducativo. Dentro da unidade para menores eu via o trabalho deles, mas não queria contato. Aqui fora percebi o quanto era necessário. Recebi o Espírito Santo e consegui entender como a minha história pode ajudar as jovens lá dentro. Quero ser obreira e desejo que meu testemunho seja usado para ganhar muitas almas”, planeja.

“Aviãozinho” aos 14 anos
Outra jovem que acabou no mundo do crime é Thallita Açucena, hoje com 24 anos (foto a dir.). Moradora de Guará, cidade satélite de Brasília, ela diz que seu envolvimento começou na escola. “Eu matava aula para fumar cigarro com outras colegas e conheci um rapaz que era criminoso. Ele era menor de idade e já tinha matado várias pessoas. Eu tinha 14 anos e fui me aprofundando cada vez mais nesse mundo. Virei ‘aviãozinho’, levava e trazia drogas, além de consumir maconha e LSD”, revela.

Relação perigosa
Ela quase foi morta quando estava tentando terminar o relacionamento com um traficante. “Ele não aceitava o fim. Chegou a arrancar metade do meu cabelo, me levou para um córrego perto de casa e ia me matar a tiros. Nesse dia, fiz uma oração e a arma negou fogo. Ele resolveu pegar uma faca para me matar. Na subida para casa, ele viu a polícia chegando e se desfez do revólver. Eu fui detida porque estava com uma faca. Respondi a processo por porte de arma branca e cumpri medidas socioeducativas”, conta.

Ele é o Suficiente
Thallita diz que já conhecia o trabalho da Universal e resolveu ir a uma reunião. “Pedi ajuda. Estava com 20 anos e fui encaminhada pelos pastores à Força Jovem. Fui acompanhada e segui o que era ensinado nas reuniões de libertação da Universal. Analisei a minha conduta, mudei o meu comportamento e sacrifiquei as minhas vontades. Hoje o meu interior é diferente. Tenho paz e não quero mais envolvimento com as drogas. Sei que Deus está comigo por onde eu for e isso é suficiente”, dispara.

“Você só vale o que tem”
Leidyjane Conceição dos Santos, de 19 anos (foto a esq.), também entrou para o crime por culpa dos relacionamentos. Há cinco anos ela se envolveu com um jovem ligado ao tráfico de drogas em João Pessoa, na Paraíba. “Fui subindo de cargo e passei por várias funções, desde a embalagem e distribuição de drogas até a arrecadação de dinheiro. Tomei conta de três ‘bocas’. Em três anos eu já tinha uma larga experiência”, diz.

Depois de uma briga, ela acabou sendo presa. “Encontraram drogas e fui apontada como a dona de tudo. Fui parar em uma instituição para menores. Lá dentro, me juntei a outras internas e queria fazer rebelião, até que um monitor me disse algo que fez a minha ‘ficha’ cair: ‘aqui você só vale o que tem’. E eu não era nada”, relembra.

Desejo crescente
A jovem diz que o contato com o grupo Universal Socioeducativo (USE) aconteceu dentro da instituição. “Uma menina mais velha me convidou para acompanhar o batismo dela nas águas. Quando ouvi os testemunhos de outras pessoas foi crescendo um desejo de conhecer mais a fé. Mas só quando saí de lá resolvi me aprofundar. Tudo mudou na minha vida: me afastei das coisas do mundo, estou terminando o ensino médio e pretendo trabalhar. No futuro, quero cursar direito”, projeta.

Dono da facção
A jovem Thaís Yohana Gomes, de 22 anos (foto a esq.), também se envolveu com o crime muito cedo. “Com 17 anos, fui morar sozinha e os colegas me apresentaram várias drogas. Conheci a maconha, a cocaína e até cola de sapateiro. Eu misturava tudo. Acabei me envolvendo demais com as pessoas que encontrei nas baladas e me relacionei com todos os tipos de pessoa”, explica.

Em um dos relacionamentos, quando estava envolvida com um traficante, ela teve que forjar a morte de uma irmã que morava em outra cidade para fugir. “Ele era sobrinho do dono da facção e não me deixava sair de casa. Tive que mentir. Quando ele descobriu, mandou me procurar e me ameaçou de morte caso eu não voltasse. Não voltei. Eu vivia mudando de endereço e envolvida em dívidas com o tráfico”, revela.

“Deus, me perdoa”
Thaís conta que para alcançar a mudança de vida teve que vencer a vergonha. “Minha família era da Universal e quando eu decidi ir me perguntava o que as pessoas pensariam a meu respeito, até que liguei para uma obreira e falei que precisava de um lugar para ficar. Ela me disse que me ajudaria se eu fosse com ela à Igreja no domingo de manhã. Eu engoli o meu orgulho na hora em que o pastor chamou na frente do Altar. Entendi que era a minha última chance. A única coisa que eu consegui falar foi ‘Deus, me perdoa’”, relembra.

Ajudar, em vez de julgar
Para o Pastor Ulisses Gomes, responsável pelo trabalho do grupo Universal Socioeducativo (USE) no Brasil e no mundo, os casos acima demonstram que é preciso ter uma atenção especial com as mulheres. “Hoje cerca de 80% das jovens que são presas estão abandonadas pelas famílias. Os voluntários do USE passam a ser a família delas. Nós tentamos mudar esse panorama com cursos, palestras, exibição de filmes, apresentações de teatro, orientação sobre gravidez e sobretudo evangelizando e levando a Palavra de Deus. Nosso pensamento é recuperar o
irrecuperável”, finaliza.

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