Tragédia em Suzano gera reflexões sobre jovens no Brasil

Após ataque, alunos, professores e familiares buscam alternativas para superar o que aconteceu


Por Eduardo Prestes, Maiara Máximo, Rê Campbell, Kelly Lopes, Flavia Francellino e Camila Dantas / Fotos: Demetrio Koch e Cedidas

Na manhã do dia 13 de março, a Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, foi alvo de um ataque a tiros provocado por dois ex-alunos da instituição. Oito pessoas foram mortas, entre elas a coordenadora pedagógica e uma inspetora, e outras 11 vítimas ficaram feridas.

O crime foi planejado e executado por Guilherme T.M., de 17 anos, e Luiz Henrique C., de 25 anos, com o uso de revólver, carregadores, arco e flecha, um artefato que dispara flechas e machadinha. Ainda dentro da escola, Guilherme matou Luiz Henrique e, em seguida, tirou a própria vida.

Antes de se dirigir à escola de Suzano, a dupla foi até o lava jato do tio de um deles e atacou o homem, que chegou a ser socorrido, mas morreu no hospital. Os atiradores chegaram ao local do crime em um carro alugado. A polícia apreendeu computador, tablet, pen drive e celulares que eram dos dois.

Comunidade extremista
O Ministério Público de São Paulo investiga se os autores do ataque tiveram ajuda de grupos radicais que operam em fóruns na chamada deep web, sites da internet difíceis de ser rastreados em plataformas de busca. Esses grupos são conhecidos por discussões de teor racista e homofóbico. Segundo reportagem do portal R7, os atiradores usaram uma comunidade extremista do Brasil para reunir dicas e planejar o ataque. Os dois atiradores teriam agradecido a ajuda de um fórum chamado Dogolochan.

Sobrevivente
Rhillary Barbosa de Souza, de15 anos, é umas das sobreviventes do ataque. A jovem falou com exclusividade à Folha Universal. Ela estuda lá há três anos e nunca notou problemas no ambiente escolar. “Eu nunca percebi bullying na escola. Somente uma vez presenciei uma brincadeira de mau gosto de um aluno com outro, mas no mesmo momento foi resolvido. Todo mundo era amigo, não tinha grupos e ninguém excluía o outro”, conta.

Ela elogia o ensino da escola, que é reconhecida por ter desempenho acima da média entre as instituições estaduais de São Paulo. Em 2017, a unidade teve a terceira maior nota no Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb) nos anos finais do ensino fundamental, com pontuação de 5,8, contra a média nacional de 4,5.

“Olhar de ódio”
Para a jovem, faltou segurança nesse dia. “O portão da escola não costumava ficar aberto, mas estava. Não tínhamos um segurança, nem porteiro, sempre eram as inspetoras que ficavam na porta monitorando a entrada e a saída dos alunos”, relembra.

Na hora do ataque, Rhillary se deparou com um atirador, que, segundo ela, tinha uma feição horrível. “Ele tinha um olhar de ódio e um rosto que não sei definir. Era algo assustador, nunca vi uma pessoa daquele jeito.” Foi nesse momento que ela entrou em luta corporal com ele. “Faço aulas de jiu-jítsu e consegui me livrar dele, abri a porta que dá acesso à rua e escapei com outros alunos”, explica.

E agora?
Rhillary reflete sobre o que ocorreu e como sua vida mudou. “Depois disso, eu comecei a me valorizar como pessoa, pois quando eu passava por alguma dificuldade eu tinha o pensamento de que se eu estivesse morta seria melhor. Hoje isso nem passa mais pela minha cabeça, quero viver. Quero enfrentar meu medo e voltar. Nesse momento todos os alunos, professores e pais devem se unir e enfrentar isso juntos. Poderia ter acontecido em qualquer lugar, mas vamos superar e seguir em frente”, diz.

Escondidos
Outra pessoa que escapou do ataque é a aluna Rayssa Amorim, de 16 anos (foto a esq.), que estuda no segundo ano da Escola Raul Brasil. Alguns dias depois do tiroteio, ela tomou coragem e voltou ao local. “No dia, eu não vi nada. Não vi ninguém morto nem os agressores, porque na hora eu estava com meus amigos atrás do colégio. Quando começou o barulho eu pensei que era uma bomba e todo mundo pensou o mesmo, mas depois veio o barulho de novo e todo mundo falou: ‘é tiro’. Todos correram”, conta.

Mãe
A mãe de Rayssa, Angelita Amorim, de 45 anos (foto abaixo), revela que a família veio do Rio de Janeiro recentemente procurando um local em São Paulo que estivesse longe da violência para morar e educar a filha: “essa escola é referência aqui em Suzano, por isso nos foi apresentada. Eu creio que a Rayssa vai superar isso porque não depende do governo somente, não depende dos pais, depende muito de Deus. Eu creio em Deus que eles vão superar isso e essa escola vai continuar sendo referência em Suzano”, afirma.

“É Horrível lembrar”
Rayssa diz que teme que tudo possa acontecer novamente. “Eu não sei se estou preparada para voltar, vim aqui na frente da escola e já comecei a chorar. Não sei se estou pronta para entrar lá dentro. A gente não sabe se vai acontecer de novo. É horrível pensar nisso outra vez: o barulho, a correria, a gritaria, tudo isso volta na minha cabeça. Tudo isso é horrível lembrar”, revela.

Sem saída
Rayssa conta que ela e outros colegas ficaram sem saída diante do que estava acontecendo: “foi tudo muito rápido. Pulamos o muro que dava para a quadra e ficamos escondidos atrás dele, abaixados e em silêncio. Depois, alguém disse que o portãozinho do caseiro estava aberto e saímos por ele. A polícia chegou e mandou todo mundo ir para casa ou para outro lugar. Tenho colegas que foram atingidos, um deles foi ferido com uma machadinha nas costas e outro com um tiro na boca”, detalha.

Acolhimento
Dono de uma oficina mecânica próxima ao colégio, José Santana Filho, de 68 anos (foto abaixo), acolheu alguns estudantes quando o ataque ocorreu. “Aqui entraram de oito a dez pessoas apavoradas. As meninas não conseguiam se comunicar com os pais delas e não tinham condições de ir embora para casa sozinhas. Então tentei acalmá-las e fui falando para ficarem tranquilas”, explica.

José tem a oficina há 20 anos no bairro e conta que o local sempre foi tranquilo. “Os meus filhos estudaram aí. O meu filho tem 39 anos e a minha filha tem 34 anos e eles não têm do que reclamar da escola. Conheço vários professores e, como é pertinho de casa, fico muito sentido com o que aconteceu”, pontua.

Por pouco
Poucos minutos antes do ataque, a estudante Monique Santana Ochiuto, de 15 anos (foto abaixo), lembra que esteve na secretaria, local em que os atiradores mataram e feriram grande parte das vítimas. “Era dia de prova. Eu e mais três amigas saímos para o pátio e uma delas precisava passar na secretária. Chegando lá, a inspetora, que acabou morrendo no ataque, pediu para voltarmos mais tarde, pois tinha muita gente.” As jovens foram para a cantina. “Ouvimos um barulho e achamos que não era nada, mas depois percebemos que eram tiros. Entramos em desespero”, revela.

Naquela hora de pavor, ela conta que alunos e funcionários buscaram proteger uns aos outros. “Alguns rapazes nos levaram para o banheiro e ficamos lá. Ligamos para o Corpo de Bombeiros e para a polícia. Lembro que o atirador gritava ameaçando que se alguém chamasse a polícia ele atiraria mais. Ficamos em pânico”, reforça.

Depois de poucos minutos, a polícia chegou e orientou Monique e os outros jovens que estavam com ela a correrem direto para a saída da escola. “No caminho vimos corpos de colegas mortos, das tias, muito sangue e muita gente correndo. Eu só chorava. Hoje estou mais calma, mas só porque tive suporte emocional da minha mãe e também por conta da minha fé em Deus”, detalha.

Oração
Quando soube do acontecido, a mãe de Monique, Maíra de Almeida Santana Ochiuto, de 36 anos, estava no trabalho. “Recebi a ligação do motorista da van escolar. Ele me disse que tinham entrado na escola atirando e desligou. Avisei imediatamente minha gestora e nos unimos em oração pela vida da Monique e de todos os outros alunos e funcionários”, conta ela, que também estudou no colégio há 11 anos.

Ela diz que foi a fé no Altíssimo que a sustentou naquele momento. “Estou em propósito pela minha família e cri que Deus me sustentaria até chegar lá. Ligava para a escola para ter mais informações e ninguém atendia, o celular da Monique também só dava caixa postal”, acrescenta.

Maíra também recebeu o telefonema de sua tia. “Ela disse que quando ficou sabendo do massacre correu para a escola, encontrou a Monique na rua e a levou para casa. Quando cheguei, minha filha ainda estava muito apavorada, mas fiquei aliviada em vê-la viva e bem”, desabafa.

Mesmo com todas as mortes, ela acredita que Deus esteve no controle da situação. “Infelizmente houve mortes, mas era para a tragédia ter sido muito maior. Eu vejo que Deus guardou muitos. Houve um livramento, porque o propósito dos atiradores era muito maior do que isso”, relata.

E agora?
O secretário estadual da Educação de São Paulo, Rossieli Soares da Silva, destacou que ainda não existe um plano definido para saber o que acontecerá com a escola e os alunos. “Precisamos entender o que essas pessoas estão passando. Tem aspectos muitos específicos dessa tragédia que precisam de uma atenção especial que vai além da segurança, de colocar um policial na porta da escola ou detector de metais. Não é só isso que vai resolver. Como a gente identifica um menino que precisa de um atendimento? Que atendimento podemos fazer melhor para a família? Estamos vendo coisas que aconteceram nesse ato que vão muito além dos programas de segurança que temos e que estamos trabalhando”, disse.

Política de segurança
Para José Vicente da Silva, coronel da reserva da PM de São Paulo, ex-secretário nacional de Segurança Pública e colaborador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a prevenção a esse tipo de crime é difícil, mas algumas ações do poder público podem ser adotadas para dificultar ataques.

“Aqui em São Paulo nós temos as rondas escolares em escolas públicas. Elas passam regularmente nas escolas, dão certa tranquilidade e criam um pouco de risco para aqueles que queiram atentar contra a escola. As políticas de segurança e educação precisam ser claras e concretas, como monitoramento de áreas externas e ações dentro do ambiente escolar, e treinamentos para que professores possam identificar bullying e comportamentos anômalos de alunos, em um trabalho conjunto com psicólogos e pedagogos”, completa.

Ambiente acolhedor
Eduardo Calbucci, educador e um dos fundadores do Programa Semente, lembra que tragédias como a de Suzano não têm uma única causa. Entretanto ele acredita que o ambiente escolar deve estimular o diálogo e a reflexão. “A escola é um dos primeiros espaços de socialização de crianças e jovens. Então, esse ambiente precisa promover discussões sobre como os jovens podem lidar com as próprias emoções. É importante criar um ambiente em que eles se sintam acolhidos. Isso pode ser um primeiro passo para identificar distorções de comportamento antes que elas se transformem em tragédia”, avalia.

Diálogo
A psicóloga Elaine Di Sarno salienta que a melhor forma de ajudar as crianças e os adolescentes a entenderem e a superarem o trauma é conversar abertamente sobre o assunto. “Eles viveram essa situação traumática e estão com medo, inseguros. É muito importante que os pais ou outros responsáveis acolham a angústia deles e deixem que falem a respeito do que aconteceu. Tudo isso ajudará também a entender e a superar, não só o fato, mas também o sentimento de perda dos amigos.”

Atenção
Debora Moss, neuropsicóloga e especialista em psicologia do desenvolvimento, reforça que as vítimas precisam de muita atenção. “Atentados desse tipo trazem uma sensação de impotência, de impossibilidade de ação, porque as pessoas foram pegas de surpresa. Por isso, é preciso de um tempo para que se processe tudo o que aconteceu. E é aí que pode surgir o estresse pós-traumático. Essas crianças, jovens e funcionários podem sofrer as consequências emocionais não apenas agora como também daqui a meses ou anos”, explica.

 Ajuda da Universal
Logo após as primeiras notícias sobre o massacre em Suzano, diversas pessoas se dirigiram para a Escola Raul Brasil. Enquanto muitos curiosos se aglomeravam no local, cerca de 40 jovens do projeto Força Jovem Universal (FJU) chegaram à escola por volta do meio-dia determinados a oferecer apoio às vítimas e às famílias. “Fizemos orações e atendimentos para oferecer conforto às pessoas que estavam no lá. Foi um momento de desespero e espanto de todas as pessoas”, lembra o pastor Richard da Lapa, que mobilizou os voluntários do FJU de Mogi das Cruzes. Além do grupo de jovens, cerca de 100 voluntários da Universal estiveram em Suzano, entre eles representantes do Grupo da Evangelização. Os atendimentos continuaram nos dias seguintes à tragédia, inclusive no fim de semana.

O Bispo Alessandro Paschoal, coordenador do Grupo de Evangelização da Universal no Brasil, também esteve em Suzano e participou de evento ecumênico durante o velório das vítimas. “Nosso papel como cristão não é prestar somente solidariedade, mas é trazer consolo através da Palavra de Deus”, disse.

Walber Barbosa, responsável pelo trabalho do Namoro Blindado nas Escolas, também prestou atendimento aos pais e alunos da escola Raul Brasil um dia após a tragédia. Ele relata que a sensação de impunidade era nítida entre os pais dos alunos. “O pai de uma vítima me disse: ´espero que depois desse show, se faça alguma coisa para que isso não volte a acontecer´. Por isso, a importância do trabalho que desenvolvemos nas escolas, pois levamos o entendimento de que se não houver investimento no diálogo, lá na frente infelizmente teremos perdas”, enfatizou.

Projeto nas escolas
Crianças e adolescentes em idade escolar cada vez mais têm acesso à variedade de informação, principalmente por meio de dispositivos eletrônicos usados diariamente. Porém, no dia a dia, pouco se aborda o assunto da vida amorosa e tantos outros temas para jovens nessa fase. Com o objetivo de dialogar com esse público, Renato e Cristiane Cardoso, apresentadores do programa The Love School e autores do livro Namoro Blindado, desenvolveram o projeto Namoro Blindado nas Escolas, que conta com uma equipe que visita instituições de ensino em todo o Brasil e realiza palestras direcionadas a alunos dos ensinos fundamental e médio. O intuito é orientar jovens sobre como lidar com as expectativas, medos, dúvidas e relacionamentos amorosos na juventude.

Help
Outro tema presente na realidade do jovem é o bullying. As agressões físicas, psicológicas e emocionais fazem parte do cotidiano de um em cada dez alunos brasileiros, de acordo com dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). A Universal também tem o Projeto Help nas Escolas, iniciativa da Força Jovem Universal (FJU) que visa ajudar os jovens a lidar com situações como a depressão, a automutilação e o desejo de suicídio. O Help chega às instituições com a proposta de abordar esses assuntos com palestras e dinâmicas para conscientizar o público sobre a importância de pedir ajuda. O apoio também pode ser solicitado via WhatsApp (11) 94814-0158 ou por meio de uma conversa com um dos voluntários do grupo.

O Bispo Marcelo Brayner, responsável pela FJU no Brasil, afirma que para os jovens superarem o ocorrido é necessário que se apeguem à fé. “A Palavra de Deus afirma que o jovem é forte, como está em 1 João 2.14, mas para isso ele precisa praticar esta Palavra. Não se trata da força física, mas do que está dentro dele. O jovem é forte para ser diferente, para vencer o medo, o bullying, os traumas, os complexos, para combater as causas que levam tantos jovens a cometerem fatalidades.”

Ele também explica que a sociedade deve olhar “com atenção para a nossa juventude hoje, imediatamente, pois eles serão a sociedade de amanhã”, finaliza.

A Universal vai continuar prestando apoio às famílias. Voluntários dos grupos seguirão visitando e ajudando as vítimas.

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