Cuidado com a corrupção diária

Não adianta pensar que isso é coisa só de político, pois um corrupto nasce toda vez que o “jeitinho brasileiro” é posto em ação por alguém


Por Marcelo Rangel/ Fotos: Fotolia e Demetrio Koch / Arte: Edi Edson

O mal da corrupção degrada a sociedade. Porém, devemos evitar seguir os maus exemplos que vêm de alguns políticos e da mídia, mas também do dia a dia: se vemos alguém furar uma fila, sofremos uma tentação muito grande de fazer o mesmo e também “levar vantagem”. Mas devemos resistir e continuar a fazer o certo, mesmo quando nos sentimos injustiçados.
Luis Henrique Rodrigues, de 36 anos, webmaster
e webdesigner

Abra um jornal qualquer. Ligue a TV. Acesse um portal de notícias. Ouça uma rádio de cunho jornalístico. Mesmo com a atenção da população eventualmente desviada para qualquer assunto menos ou mais relevante, como Copa do Mundo, há outro que sempre está lá: a corrupção. Ainda mais em nosso País.

Mas até esse foco sobre as práticas corruptas e corruptoras pode estar errado. Quando as pessoas topam com uma notícia sobre corrupção, nove entre dez – às vezes as dez mesmo – pensam nos políticos. Mas ela é algo infelizmente tão enraizado no dia a dia do brasileiro que o próprio cidadão comum não metido em maracutaias políticas ou grandes fraudes financeiras acha que suas pequenas faltas com a ética são até perdoáveis.

Mas vamos deixar essa informação guardada aqui e depois voltaremos a ela. Antes disso, que tal sabermos o que é corrupção e como ela afeta cada um de nós e, por consequência, toda a sociedade?

Já ouviu falar, no uso cotidiano da informática, que certo arquivo (pode ser um texto, uma foto, etc.) está “corrompido”? Isso quer dizer que aconteceu algo, por uma causa externa ou não, que modificou ou estragou sua composição e isso impede que ele seja aberto ou executado. Sua integridade foi comprometida. Do mesmo modo, uma pessoa corrompida – ou a que corrompe outras – também teve a sua personalidade transformada ou influenciada por uma oportunidade de ganho fácil ou pela tentativa de não ser punida por um ato errado.

E isso também impede que um indivíduo “funcione” direito, deixando de pensar e agir como um cidadão, tendo só a si mesmo como foco de tudo, passando por cima dos direitos dos outros para se beneficiar e só. Incluem-se aí o político que busca se eleger para se apoderar do dinheiro público ou mesmo quem tenta dar uma “graninha” para que o fiscal de trânsito não lhe aplique uma multa.

Bom, vamos partir dos políticos para depois apontarmos para nós mesmos – afinal, estamos todos intimamente ligados, caso ninguém tenha lembrado disso, pois o político vem do povo e sobe ao poder. A corrupção é deixar a sua personalidade ser modificada pelas circunstâncias ou por outra influência maléfica para que ele, que deveria representar a população, use esse poder para se beneficiar ou a certos grupos que pagam pelo “serviço”.

É como diz Jairo Martins da Silva, presidente da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ) e professor visitante da Business School São Paulo (BSP) e da Münchener Volkshochschule, em Munique, na Alemanha, que volta e meia é visto na mídia falando dos efeitos da corrupção na realidade brasileira. “Todos temos culpa nesse processo de negação dos nossos valores.”

Como assim? O especialista enumera como chegamos a isso: “nós, cidadãs e cidadãos, porque fizemos escolhas erradas; os governantes e os políticos que, pela incompetência gerencial, utilizaram-se da corrupção para conseguir os seus objetivos pessoais; e os empresários, pela convivência ao aceitar as regras sujas impostas pelos políticos”.

Efeito direto em nós
A corrupção afeta a vida de todos diretamente, embora para muitos possa parecer algo distante e que só prejudica os outros. Dinheiro desviado das contas públicas significa diminuição dos investimentos em saúde, educação, segurança, previdência social, habitação, qualquer tipo de prestação de serviços públicos e isso só aumenta a desigualdade social e a exclusão.

Muito da crise pela qual o Brasil passa veio da corrupção e isso vai muito além do desvio de dinheiro público. Mas o povo também aceita cesta básica e troca de voto, faz pequenas “trapaças”, etc. Quem cola numa prova na escola, por exemplo, deixa de aprender. Parece mais fácil, ganha nota, mas a vida vai cobrar aquele conhecimento lá na frente. E como vai ser sem ele?
Jeniffer Nadorni, de 31 anos, comerciária

Muitos vêm com uma desculpa que, falemos a verdade, não “cola” mais: que fomos colonizados por europeus que trouxeram essas práticas corruptas para a vida brasileira. Bem, será que em mais de cinco séculos não houve tempo para que uma consciência social fosse criada? É justo se apoiar nessa falsa justificativa para fazer o que é conveniente somente para alguns e prejudicar todos os demais? Confira no quadro ao lado e entenda melhor.

Sociedade que “anda para trás”
Não é preciso pensar muito para concluir que o desenvolvimento de todo um país e seu bem-estar dependem muito da forma como ele é administrado, seja na esfera federal, seja nas estaduais, seja nas municipais – e daí em diante, como as subprefeituras, os bairros, os condomínios e qualquer outro tipo de comunidade. Se quem está no poder, escolhido pelo povo ou não, age de forma inadequada quanto à honestidade e à competência, todos perdemos.

Por isso mesmo temos, além de escolher os melhores candidatos, de também acompanhar seu trabalho. Nós é que saímos perdendo se eles não o fizerem da forma certa. Dificilmente eles perdem algo. Acabamos de votar para presidente, governadores, senadores e deputados, agora cabe a nós fiscalizá-los.

Corrupto, eu?
Mas agora voltaremos ao que falamos no começo do texto: não adianta pregarmos os olhos nos atos dos políticos, se nós mesmos não fizermos nossa parte para impulsionar nossa sociedade para a frente e continuarmos praticando as pequenas e grandes corrupções do dia a dia, não é?

Para sobreviver, ou melhor ainda, viver uma vida decente (e isso vale para todos, não só para você), há algo tão necessário fazer todos os dias quanto comer, beber água ou respirar: agir com caráter. Antes de pensar que “fulano é corrupto” ou “beltrana é ladra”, como andam as suas próprias atitudes? Sim, você pensa que pegar dinheiro público é errado, mas tudo bem se você oferecer um dinheirinho ao gerente de um restaurante para furar a fila de espera, não é? Observe melhor. A corrupção está mais enraizada no cotidiano do brasileiro do que todo mundo pensa.

Uma pesquisa feita pela universidade Unicarioca, do Rio de Janeiro, mostrou que 71,6% dos estudantes entrevistados (não só da própria universidade que fez o estudo, mas de várias instituições Brasil afora) assumiram que já cometeram fraudes como copiar textos da internet e apresentá-los ao professor como seus (68%), assinaram a lista de presença por outros alunos (48%) ou colaram nas provas (69%). Só 28,4% disseram que nunca cometeram nada irregular. Pelo menos foi o que disseram.

Além disso, 58% dos entrevistados admitiram ter pedido a colegas que pusessem seus nomes em trabalhos de grupo, mesmo não tendo participado, enquanto 74% disseram que já atenderam esse tipo de pedido.

A corrupção está em muitas áreas, não só na política. Muitos querem que o Brasil mude, mas não querem mudar a si mesmos. Se não partir de nós a diferença que queremos, de nada adiantará. E mudar isso começa com atitudes que podem parecer pequenas, como jogar um papel qualquer no chão numa via pública, mas faz uma diferença muito grande lá na frente.
Jeferson Bittencourt, de 21 anos, auxiliar de loja

“Ah, mas isso tem a ver com corrupção?”, devem se perguntar alguns. Muito mais do que pensamos. Segundo outra pesquisa realizada em 21 países pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, de Portugal, esse tipo de desonestidade no ambiente educacional tem efeitos diretos na sociedade toda. O estudo, publicado no Journal of Academic Ethics (Jornal da Ética Acadêmica”, dos Países Baixos), traz uma conclusão bem clara: praticar ou aceitar essas “pequenas corrupções” leva a executar ou a aceitar as grandes.

Dessa forma, aí está a resposta à pergunta do começo do parágrafo anterior: tem tudo a ver. Corrupção nada mais é do que usar de meios fraudulentos para levar alguma vantagem. E pode ser desde aceitar aquele troco a mais que o caixa de uma loja entregou por distração até o desvio de grandes quantias públicas.

Ser corrupto, então, não é exclusividade só de presidentes, governadores, deputados, vereadores, dirigentes de organizações particulares, policiais, médicos, juízes, fiscais, síndicos, zeladores, entre outros. Não é seu cargo, público ou particular, que determina isso, mas você mesmo. E isso em todas as camadas da sociedade, do ambiente familiar, passando pela escola ou trabalho, até os palácios dos governos. E muitos se gabam dessas “espertezas”, bem típicas do lamentável “jeitinho brasileiro”.

Pense se você também não acaba sendo corrupto em algumas atitudes do cotidiano que parecem inofensivas, mas estão bem longe da honestidade (veja mais dados no quadro à esquerda).

Podemos resumir a corrupção e tudo que faz parte dela a uma simples palavra: egoísmo. Depende de cada um fazer a sua parte. Todos os dias. E não ligue se alguns derem aquele sorrisinho medíocre e sarcástico quando você fizer o que é certo, criticando-o verbal ou mentalmente. Todo mundo um dia prestará contas pelo que fez ao longo da vida.

Mesmo as “pequenas corrupções” farão muita diferença na contagem final – assim como já fazem na qualidade de vida de toda a sociedade.

A solução parte de nós
Para Jairo Martins, da FNQ, “o nosso futuro estará ameaçado” por essa mentalidade corrupta que corrói a sociedade. Mas ele não deixa de citar que há como vencermos isso se olharmos o nosso próprio lado da questão: “o que nos resta é que o brasileiro incorpore a postura cidadã e tenha a ética e a transparência como princípios, a começar na sua casa”.

No entanto, embora devamos ter foco em nossas atitudes antes de tudo, prestar atenção aos nossos representantes não deixa de ser uma das prioridades. Martins dá um recado que tem tudo a ver com o momento pelo qual passamos: “é preciso deixar de sermos passivos, nos indignarmos mais e cobrarmos os líderes, públicos e privados.

Temos de nos posicionar. Já estragamos o Brasil demais. A corrupção e a falta de ética no País têm solução”.
Para o especialista, boas escolhas nas urnas já são um bom começo para essa transformação da qual precisamos. E o eleitor parece ter acordado para isso na recente eleição de uma semana atrás, pois mudança é a palavra de ordem: das 54 vagas para o Senado, somente oito serão ocupadas por candidatos que tentavam a reeleição. Os velhos “caciques”, os “negociantes do poder”, foram postos de lado. Na Câmara dos Deputados, a renovação passou os 50% das cadeiras e nas Assembleias Legislativas dos Estados a renovação também foi radical.

Na política, a corrupção é escancarada e nunca foi tão grande. Mas nossas pequenas atitudes corruptas acabam sendo as que mais fazem a diferença – ocupar o lugar de um cadeirante num ônibus ou furar um sinal vermelho, por exemplo. Mas isso é tão praticado por tantos que passa despercebido, vira “normal”, mas interfere muito em nossa qualidade de vida.
Hian Alves, de 20 anos, autônomo

A ficha parecia não ter caído para a maioria dos políticos e governantes, que continuavam a se utilizar dos mesmos expedientes que nos deixaram no fundo do poço: compra de apoio, negociação de cargos, aparelhamento de ministérios, secretarias e estatais com incompetentes e despreparados, vai e vem de malas de dinheiro sem explicações e muitas outras maracutaias da velha política do “toma lá, dá cá’, que, ao que parece, está se tornando uma página virada na história. Tomara.

Mas o próprio eleitor deu sua resposta quanto a isso nas urnas no dia 7 de outubro. Analistas políticos já apontam que o Congresso será bem mais conservador, no bom sentido, que o último, com muitos dos eleitos vindos de instituições como as polícias e de denominações evangélicas.

Porém, como já dito, a reação necessária não termina no voto e vai bem além da fiscalização dos eleitos, pois volta para as atitudes de cada um do povo: “há maior conscientização das empresas e da sociedade para os delitos, sejam grandes, sejam pequenos. O brasileiro alcançou um novo patamar civilizatório e, silenciosamente, está se movimentando contra esta pilantragem que tomou conta do Brasil”.

Do que adianta reação sem pensar na ação

E lá se vão cinco anos desde que cidadãos tomaram as ruas e prédios públicos em protestos por um Brasil melhor. Em 2013, não foram poucas as manifestações populares nas principais cidades brasileiras – e até em algumas do exterior em que vivem brasileiros, como Nova York, Paris e Londres – exigindo que os governantes tomassem uma atitude concreta frente à crise política e econômica que ninguém conseguia esconder mais, embora tentassem com todas as forças.

Houve repercussões. Políticos e empresários foram expostos por investigações pesadas como a famosa Lava-Jato. Corruptos e corruptores puseram a boca no mundo, denunciando seus comparsas nas falcatruas que evidenciaram superfaturamentos, vazamento de informações privilegiadas, falsas licitações, favorecimento ilícito e muitas outras práticas até então vistas como “normais”. Não mais. O povo também pôs a boca no mundo e tomou palácios e avenidas.

 

Mas e esse mesmo povo que foi às ruas, gritou, quebrou, bateu, apanhou, vociferou sua revolta para o mundo todo ver? A atitude acabou no protesto? Claro, boa parte dos manifestantes estava mesmo indignada de forma nobre e sensata.

Tal indignação foi bem traduzida nas urnas no dia 7 de outubro, com a renovação maciça do Senado e da Câmara, além das Assembleias Legislativas estaduais. Ao que parece, aqueles protestos de 2013 realmente “acordaram o gigante”, como se falava na época. Agora, acordado, depende de todos nós que ande no caminho certo.

No entanto, o “protesto” de que precisamos hoje não é ocupar a avenida Paulista, a Rio Branco, a praça dos Três Poderes: é ocupar a mente e fazer escolhas certas nas urnas, mas, sobretudo, no dia a dia, na conduta pessoal. É certo cobrar dos representantes ações sólidas em prol do bem comum, mas também é correto, mais ainda, usar da verdadeira cidadania, com ênfase nos deveres e não só nos direitos. Com mais força no respeito pelo próximo, pela pátria, por todos nós.

Só pode se mostrar indignado quem, antes disso, tiver dignidade.

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