A lição que o Brasil leva para casa

Caso de brasileiros que insultaram mulheres durante os jogos na Rússia levanta discussão sobre respeito



Por Por Katherine Rivas / Fotos: Cedida, Reprodução, Sergei Karpukhin e Reuters

A Copa do Mundo 2018 chegou ao fim e vai deixar lembranças. Além das defesas, dos contra-ataques e das boas jogadas, acompanhamos também as condutas vergonhosas que foram expostas para todo o mundo pelas redes sociais e pelos canais de TV.

A sequência de atos lamentáveis teve início no dia 16 de junho, na primeira semana da Copa, com vídeos de cunho sexista. Brasileiros que estavam na Rússia para assistir aos jogos se aproveitaram da falta de compreensão do português de algumas mulheres para induzi-las a gravar frases vulgares, de teor sexual e de duplo sentido.

Em um dos vídeos, vários torcedores brasileiros cercavam uma jovem russa e cantavam frases pejorativas em referência ao órgão sexual dela, pedindo para que a moça cantasse com eles. Sem saber o significado das palavras, a jovem as repete. Dias depois aconteceu outra situação parecida, gravada e divulgada nas redes sociais. Os alvos eram uma adolescente, uma aeromoça e uma jornalista.

O comportamento dos rapazes dividiu opiniões. Muitas pessoas, indignadas, pediam a punição dos turistas brasileiros, ativistas exigiam um pedido de desculpas. Outras acreditavam que a atitude não passava de uma brincadeira, feita em um contexto de festa e causada pelo consumo de bebida. Já extremistas russos de posição ultraconservadora culpavam as vítimas pelo assédio na rede social do país, a VK, com forte discurso de ódio e xenofobia. Apontavam que uma geração de prostitutas teria nascido na Rússia e merecia a morte.

Alena Popova (foto a dir.), jurista russa e ativista que defende os direitos das mulheres, decidiu não ficar de braços cruzados e criou um abaixo-assinado que circula no site change.org e exige a punição dos brasileiros identificados nos vídeos por assédio e hooliganismo (comportamento destrutivo e desregrado).

Em entrevista à Folha Universal, a ativista afirmou que, apesar da existência de ideologias diferentes, é inconcebível que essas atitudes de desrespeito ainda aconteçam. “Considerando que o mundo vive com inteligência artificial, tecnologia e economia inovadora, não podemos aceitar isso. Todos estão sentados no mesmo trem que leva para o futuro. Alguém está no primeiro vagão e outros mais distantes, mas não tem como fugir e todos devemos avançar”, explica.

Os fatores

O filósofo Clodoaldo Meneguello Cardoso, doutor em educação e coordenador do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa que o ocorrido na Rússia não é algo isolado, mas decorrência de um conjunto de fatores. O primeiro estaria ligado a questões psicológicas. “O superego fica frágil quando estamos longe da sociedade em que convivemos, dando lugar a comportamentos absurdos por sentirmos que o julgamento é menor”, salienta. E acrescenta que outro fator é a dualidade entre a moral e a ética e os agravantes culturais que fortalecem certos comportamentos.

Meneguello afirma que a cultura do respeito é uma conquista que está evoluindo aos poucos, mas pressupõe algumas questões, como o fim da precariedade social, uma democracia sólida e uma educação ética.

Ele detalha seu pensamento dizendo: “sem condições básicas para sobreviver, o respeito fica em segundo plano. Como vamos falar de respeito para um morador de rua se ele tem fome?”, questiona. Para ele, o primeiro ponto a ser avaliado é a garantia de direitos básicos para todos.

Outro agravante que impede o respeito, na opinião do filósofo, é a ausência de uma democracia forte, que gera uma cultura autoritária onde muitos acham que estão acima da lei e que nenhum dos seus comportamentos serão punidos. É o caso dos brasileiros que participaram dos vídeos, sendo que dois já tinham sido condenados por crimes de prestação de contas, não pagamento de pensão alimentícia e até desvio de dinheiro público.

Educação moral

Esse autoritarismo é também fruto de uma cultura com base na educação moral. “O respeito no Brasil é uma relação autoritária, quem se comporta mal quase sempre recebe castigo”, explica Meneguello.

Quando o respeito acontece pela ética e não pela moral existe um olhar para o outro para evitar um sofrimento injusto. Racismo, sexismo, homofobia e violência ferem este princípio. Uma sociedade ética é fruto da educação com base nos direitos humanos desde a primeira infância. “No Brasil tudo funciona pelo medo e essa não é a saída. Precisamos educar as crianças para o respeito à dignidade do outro”, conclui.

Meneguello aponta que a sociedade brasileira está intolerante, o que, deve garantir mudanças. “O Brasil está passando por um processo de purgação, mas precisamos acreditar no futuro em um novo padrão”.

Para Alena Popova, há uma importante lição de casa para todos os países, porque o desrespeito ocorre com frequência em todos os campeonatos mundiais. “É inaceitável viver o desrespeito. O mundo está avançando e todos vamos ter que encarar essas situações e resolvê-las”, finaliza.

Os vídeos divulgados nas redes sociais mostram brasileiros zombando de mulheres russas. Eles pedem que elas repitam frases ofensivas e chegam a cercar uma jovem (ao centro), cantando uma música com palavras que se referem ao órgão sexual delas

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