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A Estrela de Davi

Símbolo antigo já representou medo, vergonha e hoje é motivo de orgulho para judeus de todo o mundo

Há várias origens possíveis para o símbolo da Estrela de Davi, hoje utilizado oficialmente por Israel. Ela já foi usada como símbolo de guerra, de discriminação e é até tida como relativa ao ocultismo.

É verdade que várias culturas já usaram a famosa figura formada por dois triângulos para o bem e para o mal – e é mesmo comum que um único símbolo signifique algo nobre para um povo e sirva a propósitos asquerosos para outro, dada a diversidade em nosso planeta. A despeito disso, falaremos aqui da adoção da Estrela de Davi para representar Israel e o povo judeu.

A Estrela de Davi (Magen David, na transliteração do hebraico) também é conhecida como Escudo Supremo de Davi. Segundo a tradição judaica, o símbolo era desenhado ou incrustado nos escudos dos guerreiros do sucessor de Saul.

O desenho teria sido criado por acaso, a partir do nome de Davi, escrito com três letras do alfabeto proto-hebraico: dálet, vav, dálet – o proto-hebraico foi a transição entre o fenício e o hebraico moderno (esquema ao lado). O dalet  tinha, na época, forma de triângulo e, como aparecia duas vezes no nome, foi estilizado de forma a parecer a estrela que conhecemos. Na minissérie “Rei Davi”, da Rede Record, a autora Vivian de Oliveira ilustrou a criação do símbolo como acaso, baseada em suas pesquisas sobre a época (como mostra a foto acima, no início da matéria).

A evidência física mais antiga do símbolo já ligado aos judeus foi encontrada na cidade de Sidon: um selo, achado em escavações arqueológicas, datado do século 4 antes de Cristo (a.C.). Várias sinagogas antigas, algumas da época do Segundo Templo, também mostram até hoje a estrela. Nas ruínas da Antiga Sinagoga de Cafarnaum (datada por volta dos séculos 2 ou 3), a estrela aparece em um friso (destaque em vermelho na foto abaixo), ladeada por outros enfeites – ainda não lhe era dado um significado exatamente sagrado, mas ornamental, embora aparecesse bastante. Em uma lápide do ano 300, na Itália, também lá estavam os dois triângulos sobrepostos.

Adotada aos poucos

O sábio Yehudah Hadassi, do século 12, registrou em seus escritos que o povo foi mudando o símbolo dos guerreiros de Davi aos poucos e, de um simples selo, passou a ser usado como um símbolo místico, ou amuleto. Como nos escudos antigos, simbolizava a proteção.

A adoção mais efetiva da estrela para identificar o judaísmo data da Idade Média. O imperador romano Carlos IV concedeu aos judeus de Praga (hoje capital da República Tcheca), de onde governava, o direito a uma bandeira própria. Eles confeccionaram a Estrela de Davi dourada sobre fundo vermelho. Passou a ser usada nos documentos oficiais da comunidade, nas demais obras impressas e nas sinagogas – nelas, a partir do século 19, o símbolo foi difundido sobre as cortinas das Arcas Santas.

Perseguição e vergonha

Entra o século 20. Durante um dos mais grotescos fatos de toda a História, o Holocausto, os judeus aprisionados em guetos e campos de concentração passaram a ser identificados com uma Estrela de Davi em tecido amarelo, com contornos bordados em preto, costurada em suas roupas (como na cena retratada acima, do filme “A Lista de Schindler”, no casaco do ator Ben Kingsley). No interior da estrela, a palavra “judeu”, na língua dos países em questão.

Em alguns casos, dependendo do lugar (como na Polônia) e da fase da Segunda Guerra, a estrela era pintada em azul ou amarelo numa braçadeira branca – como aparece no paletó do ator Adrien Brody (abaixo), numa cena de “O Pianista”.

Não raro, os portadores da insígnia eram molestados nas ruas ou nas prisões – em 31 de dezembro de 2012, judeus ultraortodoxos protestaram em Jerusalém contra a “hostilidade dos meios de comunicação” a eles usando a estrela amarela, o que causou indignação aos judeus alemães, que consideraram publicamente o ato como desrespeito e uma caricatura de profundo mau gosto.

Finalmente, oficial

Finda a Segunda Guerra, foi estabelecido o Estado de Israel. O Conselho de Estado Provisório aprovou a elaboração de uma bandeira.

Entre várias propostas, a Estrela de Davi passou de um ornamento ligado a uma cultura e a uma religião (o que não deixou de representar, mas hoje como um símbolo mais nobre e sério) a uma representação oficial do novo Estado, figurando no centro da nova bandeira da nação em azul celeste, tendo por cima e por baixo duas faixas na mesma cor (em alusão ao xale de orações judaico, o Talit, listrado de azul e branco), como mostra a foto abaixo.

É bastante curioso perceber a justiça poética da História. Na primeira metade do século passado, na época do Holocausto, os dois triângulos sobrepostos formavam um desenho que causava a muitos judeus uma grande vergonha e bastante medo quando andavam pelas ruas. Hoje a mesma estrela é usada com bastante orgulho pelos descendentes daqueles que a carregaram com muito sacrifício e sofrimento. O que era motivo de humilhação, agora evidencia a nobreza e a força de uma nação.

Hoje, mais do que um símbolo oficial de um Estado, de um território, a Estrela de Davi é usada para a identificação do povo judeu em geral, assim como de seus simpatizantes, em qualquer parte do planeta.

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