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Doação de órgão: decisão rápida e sofrida

Atitude pode ser minimizada com conversas durante a vida e com solidariedade após a morte

A morte é a única certeza da vida, mas é também um dos assuntos mais temidos entre as pessoas. Imagine então falar de morte e de doação de órgãos? Dois tabus que, segundo a psicóloga Cecília Zylberstajn, não devem deixar de ser tratados.

“O ideal é conversar antes, porque faz parte da vida falar sobre a morte, deixar claro se gostaria de ser cremado, se pretende ser doador dos órgãos. É interessante conversar sobre isso em família para saber a opinião das pessoas e também pode servir como uma preparação para o momento”, diz Cecília.

Pode ser embaraçoso falar sobre o assunto, mas é importante que a família saiba o desejo de cada um. “Isso evita a dúvida na hora da doação de órgãos, porque o ente responsável terá que pensar por si e tomar a decisão pela pessoa que se foi. Se já sabe qual é a vontade, torna-se mais fácil”, explica.

A decisão

Essa determinação de doar os órgãos pode estar argumentada em um único motivo. “A família pode pensar que esta seria a última boa ação que a pessoa poderia fazer. Seria uma forma até de homenageá-la após a morte, já que é uma situação que não há mais o que fazer, a não ser beneficiar outra pessoa, podendo dar até certo alívio para a família doadora.”

Segundo Cecília doar os órgãos também pode ser uma válvula de escape para a família. “Além de ajudar outras pessoas, auxilia também na superação da dor e do momento de luto daqueles que ficaram e têm que continuar a vida.”

Esse sentimento de posse pelas partes do corpo de um familiar após a sua morte pode ter razões diversas. “Alguns acreditam que deixará a pessoa incompleta, que tirará a dignidade. São crenças religiosas, culturais e individuais de cada um, mas há uma dificuldade compreensível de se desapegar. Quando uma pessoa falece a vida dela passa a ser uma memória”, especifica a psicóloga.

A doação

No hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo há uma ação direcionada chamada serviço de procura de órgãos, que trabalha com outros 54 hospitais da cidade em busca de potenciais doadores. “Aqui nós somente atendemos e acolhemos famílias que possuem entes com morte declarada, mesmo que não seja encefálica. Não trabalhamos para obter doadores, nunca conversamos com a família de alguém que esteja gravemente ferido ou doente, porque isso é altamente antiético e inadequado”, explica o médico especialista em doação de órgãos e diretor de serviço da Santa Casa, Reginaldo Boni.

Assim que um potencial doador é identificado em qualquer um dos hospitais parceiros, uma equipe é direcionada para avaliar a real situação dos órgãos. “A doação só pode ser feita se houver morte encefálica, que é estabelecida por dois médicos, além de exames complementares. Se a morte for por parada cardíaca é possível somente a doação de tecidos como as córneas e ossos, por exemplo”, esclarece Boni.

Depois de identificar a possibilidade de doação, a equipe entre em ação para dar a notícia aos familiares. “Não convencemos ninguém, mas explicamos que o órgão pode ser para qualquer um de nós. Outras famílias estão sofrendo e, graças à solidariedade, essa aflição pode ter fim.”

A partir daí, tudo deve acontecer rapidamente para que o órgão tenha condições de funcionar em outra pessoa. “Da conversa até a devolução do corpo para a família é onde atuamos mais, porque eles precisam se sentir acolhidos em todas as etapas. Entre seis e oito horas o doador está dentro do centro cirúrgico e o processo todo não passa de 12 a 16 horas, até devolver o corpo para a família.”

É nestas horas que o tempo se mostra o senhor da razão, pois cada órgão possui um tempo limite para ser transplantado ao receptor. “O coração e os pulmões têm até seis horas, o fígado os pâncreas até 12 horas, rins até 36 horas, as córneas até sete dias e os ossos até cinco anos, porque são guardados a baixas temperaturas”, explica o médico.

O depois

Há aqueles que querem saber para quem foi o órgão doado e desejam manter um contato, porém esta atitude deve ser bem avaliada. “É saudável ter esta convivência se fizer bem para quem doa e para quem recebe. Se há pessoas que não gostam ou não querem, então não será benéfico”, esclarece Cecília.

É importante que a pessoa não substitua quem morreu por aquela que recebeu o órgão. “Isso não pode atrapalhar o processo de luto, fazer com que o familiar não aceite a morte. Mas isso não acontece se tudo for muito esclarecido e ficar entendido que uma pessoa não tem nada a ver com a outra.”

Para Boni, identificar quem recebeu o órgão para a família doadora pode gerar uma situação embaraçosa. “E isso deixamos claro desde quando falamos com a família, porque pode causar algo constrangedor, tanto para quem recebe quanto para quem doou, e não temos como controlar este processo. Precisamos tomar cuidado porque não sabemos o que as pessoas querem umas das outras, não podemos criar vínculos que não são necessários. Indicamos com veemência e não fornecemos os dados.”

Porém, há um trabalho de suma importância que é realizado após a doação. “Após alguns meses, mandamos uma carta de agradecimento com papel e tinta especial, para que o documento tenha alta durabilidade. Além disso, um ou dois anos depois, se alguém nos procurar para conversar e saber se os órgãos foram doados, se o receptor passa bem, nós passamos estas informações, mas somente até aí. Nós vivenciamos junto com a família o luto dela”, ressalta Boni.

Como ser um receptor

Segundo Boni, hoje há em média 15 mil pacientes no Estado de São Paulo esperando por um órgão. “A maior parte precisa de um rim e está em tratamento chamado diálise. As listas de fígado e coração são menores porque estas pessoas morrem com mais frequência, por não haver tratamento para estes problemas, a não ser a doação.”

Para entrar na espera é preciso fazer um Cadastro Técnico, onde estão todas as listas para cada órgão. “Quem precisa de um órgão é necessário procurar uma equipe transplantadora - existem diversas. Elas atendem e inscrevem o paciente na lista específica, de forma online, e a pessoa passa a ter um registro onde ficam todos os seus dados.”

Porém, cada lista tem uma forma de fazer a seleção do receptor. “Por exemplo, quem precisa de rim, vai receber or órgão do doador que for mais compatível, independente da colocação da pessoa na listagem de receptores de rins. No caso do fígado, o critério é por gravidade, e para o coração é por urgência e tempo de espera. O cadastro é estadual, mas isso não significa que o órgão será perdido caso não exista um receptor compatível, neste caso, ele é ofertado em nível nacional”, esclarece o médico.

Como ser um doador

Boni explica que somente uma pequena parcela da população não pode ser doadora: “Aquele que morre por causa do vírus da aids, com câncer ou por doenças hematológicas (doença do sangue).”

Porém, para aqueles que desejam ser doadores é preciso avisar a família em vida. “Não há documento, carta escrita ou qualquer outra coisa que garanta a doação dos órgãos, se a família disser que não quer doar, não haverá doação. Mas geralmente a doação acontece, quando é apresentada a eles a possibilidade de ajudar outra pessoa.”

A importância

Na opinião da psicóloga Cecília, hoje as pessoas estão mais abertas para entender e agir a favor da doação de órgãos. “Porque é um assunto muito falado em diversas mídias, explicando os benefícios desta atitude, a rapidez que tudo acontece. Atualmente, as pessoas pensam mais nos benefícios e se elas estivessem precisando daquele órgão.”

Para o médico, é preciso capacitar os profissionais para que a notícia da morte seja dada corretamente. “É importante saber conversar e esclarecer, de forma íntegra e responsável, pois toda informação equivocada se replica e pode influenciar nas futuras decisões de doação.”

Boni enfatiza que a doação de órgãos somente tem aumentado porque as famílias têm sido bem acolhidas e informadas. “A atenção prestada àqueles que devem tomar esta decisão é de suma importância, senão é mais provável que não haja doações. As pessoas precisam entender que o morto pode beneficiar a sociedade de onde ele saiu de forma ética, íntegra, legal e técnica.”

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