USA
 

O Mangá

O jeito japonês de se fazer histórias em quadrinhos ganhou apreciadores e artistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil, com direito a até mesmo gibis com histórias da Bíblia

No Japão, o termo mangá designa histórias em quadrinhos em geral. No ocidente, a palavra passou a definir os quadrinhos em estilo japonês, mesmo os feitos fora do Japão. O Brasil, por exemplo, tem centenas de milhares de apreciadores dos gibis com personagens de olhos grandes, cabelos coloridos e histórias às vezes bem complexas, lidos no sentido contrário ao dos tradicionais quadrinhos. O País também virou, na última década, um celeiro para novos e veteranos desenhistas do estilo, alguns admirados até no Japão.

Assim como as histórias em quadrinhos em geral têm origem nas pinturas egípcias comumente feitas nas paredes dos palácios, templos e pirâmides, em que as figuras descreviam uma ação em narrativa sequencial, os mangás são provenientes dos primeiros rolos de pinturas japonesas, os emakimono (à esquerda), que associavam pinturas e textos contando uma história conforme eram desenrolados, no século 8 antes de Cristo.

Os rolos deram lugar aos livros ricamente ilustrados, feitos para se apreciar tanto o texto quanto os desenhos. Mas um novo formato surgiu no início do século 20, influenciado pelos quadrinhos ocidentais. As histórias, como nos primeiros tempos do mangá, eram tanto sobre acontecimentos históricos quanto sátiras e críticas à sociedade e aos governantes. Após a Segunda Guerra Mundial, a influência dos comics ocidentais ficou ainda mais forte nos quadrinhos japoneses.

No pós-guerra, o Japão (que pertencia ao Eixo com a Alemanha e a Itália e perdeu a guerra) passou por um período de reestruturação econômica com severas limitações. Os mangás, então, eram feitos em papel barato, semelhante ao de jornal, com capa vermelha simples e páginas do tamanho de um cartão postal. Era uma alternativa aos títulos mais tradicionais, que costumavam ser caros.

O jeito japonês de se fazer histórias em quadrinhos ganhou apreciadores e artistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil, com direito a até mesmo gibis com histórias da Bíblia

Influência de Disney

O mangá moderno veio mesmo por iniciativa do reverenciado artista e empresário japonês Osamu Tezuka (à direita, em selo postal comemorativo), fortemente influenciado por Walt Disney. Tezuka, criador de histórias famosas também no Brasil, como “Kimba, O Leão Branco” (mais tarde copiado pelos estúdios Disney em “O Rei Leão”), “Astroboy” e “A Princesa e o Cavaleiro”, praticamente definiu o estilo dos mangás como são até hoje: traços do rosto exagerados para aumentar a expressividade (daí os grandes olhos e bocas, por exemplo), efeitos gráficos como linhas para dar a impressão de velocidade e onomatopeias (as palavras que descrevem os sons) integradas ao desenho, além de enquadramentos muito semelhantes aos do cinema. Também foi Tezuka quem criou algumas das primeiras séries de desenhos animados usando os mesmos traços dos mangás, os animês (outra arte muito popular também no Brasil).

Nas escolas japonesas, os mangás são utilizados com sucesso para ensinar diversas disciplinas, os chamados edumangás.

Com o tempo, ícones da arte sequencial ocidental se renderam ao estilo japonês de quadrinhos. Já ganharam os traços japoneses personagens clássicos como X-Men, Homem-Aranha, os peritos criminais da série televisiva “CSI - Investigação Criminal” e, no Brasil, até mesmo a tradicionalíssima Turma da Mônica ganhou visual de mangá com uma nova revista em que os personagens já atingiram a adolescência. Outra iniciativa brasileira no mesmo estilo é a volta da personagem Luluzinha, também adolescente. Até clubes de futebol brasileiros e esportistas como o piloto Ayrton Senna (esquerda) ganharam histórias do tipo.

Falando em mangá e Brasil, o País tem hoje centenas de milhares de fãs e até mesmo desenhistas cujas histórias vão parar nas lojas e bancas japonesas. Os artistas locais têm até mesmo uma representação oficial: a Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações, desde o início dos anos 1980, embora o estouro do mangá por aqui tenha acontecido por volta do ano 2000, tendo hoje um status tão respeitável que já ganhou até mesmo seções específicas para eles em revistarias, livrarias e bancas.

Nem mesmo o maior quadrinhista brasileiro resistiu: Mauricio de Sousa lançou a já citada "Turma da Mônica Jovem", com um enorme sucesso que, em algumas edições, superou até mesmo as vendas de seus gibis tradicionais com o grupo de crianças levadas liderado pela famosa menina brava e dentuça. Não por acaso, Mauricio foi amigo e admirador do já falecido Osamu Tezuka.

Bíblia em quadrinhos

Até mesmo as Sagradas Escrituras ganharam suas histórias em quadrinhos em estilo japonês. No Brasil, já forma lançados dois mangás inciciando uma nova séria de sucesso: “Metamorfose”, baseado no livro de Atos dos Apóstolos, e “Messias” (à direita), cujo protagonista, obviamente, é o próprio Jesus Cristo. Fiel aos textos bíblicos, a história ganhou um modo interessante de chamar a atenção do público jovem.

Muitos cursos específicos para desenhar mangás foram abertos em alguns estados do Brasil, sobretudo em São Paulo, onde está a maior colônia japonesa do mundo. Mas os apreciadores da arte com seus personagens de olhos grandes e expressivos não estão somente entre os nipônicos e seus descendentes. Muitos partem da simples leitura para o aprendizado do desenho e da narrativa mangá. Os próprios japoneses já começaram a apreciar e a respeitar os mangás feitos por desenhistas que não têm os olhos puxados, em um fenômeno que, ao que parece, veio para ficar.

Comentário



Nossas Sugestões

Nossas sugestões

x
Próximo